O silêncio da balbúrdia?

A meu ver, enquanto houver um miserável, um homem com fome, o sonho socialista continua.
(Ariano Suassuna)

O mestre Ariano Suassuna denunciava em suas aulas espetáculo o seu apreço pelos doidos, pelos desvalidos da falsidade. Aqueles que em sua pureza de raciocínio nos remetem aos mais amplos e inquietantes juízos do mundo que construímos. Por vezes, esses tidos loucos nos embasbacam com constatações tão óbvias que mesmo o mais intelectualizado dos mortais coraria. Precisamos de mais adoidados no Brasil.

Conta o espetacular escritor paraibano que certo dia um amalucado estava com o ouvido encostado em uma murada. Ali permanecia como que a auscultar o monumento de alvenaria. Horas se somavam àquela atitude inusitada e os transeuntes já se amontoavam na tentativa de decifrar aquela cena tão misteriosa. Ele, o doido, nada fazia além de aguçar sua capacidade auditiva a ponto de despertar nos observadores uma incontrolável angústia. Afinal, o que ouvia aquela criatura ao recostar o ouvido com tanta atenção em um muro que nada expressava? Que mistério ali se instalara há horas e sem resposta?

A inquietude dos espectadores começava a revestir-se de um desconforto beirando ao sofrimento. O descontentamento ante o inexplicável açoitou o neurônios do paralisado público e um a um os atormentados se dirigiram ao muro e assim, como o doido, aproximaram seus ouvidos do paredão inerte. Dentro de pouco tempo o inanimado corpo de tijolos e argamassa tinha sua face externa revestida de irrequietas e sofridas orelhas, sedentas de um sinal, um som, um tremor ou qualquer coisa que lhes aliviasse a aflição do vazio silencioso daquele tumulto…

Horas se passaram de intensa apreensão, até que um dos supliciados dirigiu-se ao lunático e como a representar toda a massa de sofredores argüiu: – Não consigo ouvir nada! Ao que o doido redargüiu: – Desde manhã cedo que tá assim… E retomou o seu lugar na parede, desta vez com mais proximidade ainda, roçando o órgão vestibulococlear no reboco, como que a esperançar alguma resposta que nunca viria.

A perplexidade ante a extravagância da cena, ante o caricato e burlesco mentecapto a surrupiar a atenção de todos com a sedução pelo incógnito e a esculachar os presentes pelo vazio da sua resposta, nos revela até onde podemos sofrer pelo que não existe. Até onde nos ocupamos com o jocoso, sarcástico, grotesco e insensato. Até onde esperamos vir o que não há, de onde não tem. Até onde os elementos fantasiosos ou imaginários do quadro político brasileiro nos convidam a esperar que um muro expresse qualquer inteligência.

Qualquer verossimilhança na resposta do doido à sua platéia com o Brasil de hoje é intriga dos equivocados. Afinal o professor, poeta, ensaísta e dramaturgo Ariano Suassuna já antevia o ato quando afirmava comicamente para os perplexos: – Eu divido a Humanidade em duas metades: de um lado os que gostam de mim e concordam comigo. Do outro, os equivocados.

Confesso que até agora não ouvi nada! A muralha edificada pela intolerância e o revestimento em ódio insano, até o presente momento não me sussurrou a que veio. Até aguço os sentidos ao extremo, me esforço e nada ouço no meio da balbúrdia. Desconfio que seja por minha condição de equivocado…

Francisco Jarismar de Oliveira (Mazinho)

Mazinho

Mazinho

Francisco Jarismar de Oliveira (Mazinho) é Licenciado em História pela UFCG; Especialista em Informática em Educação pela UFLA e Servidor Público Federal do IFPB.
[email protected]