“Você está condenado a me condenar!”

“Tá rebocado meu compadre
Como os donos do mundo piraram
Eles já são carrascos e vítimas
Do próprio mecanismo que criaram.”
(As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor)

“O problema não era a captação do diálogo e a divulgação do diálogo, mas era o diálogo em si, uma ação visando burlar a justiça”, disse o ex-juiz Sérgio Moro ao seu interlocutor Pedro Bial quando indagado sobre o vazamento, feito pelo próprio Moro, de uma conversa íntima entre os ex-presidentes Lula e Dilma. O teor daquela conversa era de interesse de todos os brasileiros. Por isso ela deveria ser conhecida de todos, afinal os ex-mandatários da nação macomunavam, nas entrelinhas do diálogo, contra a República. Ameaçavam o Estado Democrático de Direito e toda a estrutura de confiança sobre ele edificada. E isso é inadmissível!!!

Até aqui os brasileiros assistiram estupefatos aos desenrolar das ações do ex-meritíssimo na implacável defesa do Estado. O super-homem da Lei e defensor da pátria contra os corruptos, não mediu esforços. O paladino da pureza jurídica, possuidor de um sexto sentido capaz de lhe conferir mediúnica convicção de fatos sem provas materiais, vestiu a capa vermelha (ops!) e foi às manchetes da fama. O mérito da caça aos corruptos era seu e a presidência do Brasil era uma questão de tempo… Sonhou o já ministro.

Só que, na euforia dos vaidosos, esqueceu-se de que a história não perdoa os fracos e que, por sua vez, concede aos mais robustos a sobrevida necessária para garantir a evolução da humanidade. E, assim sendo, havia um sobrevivente histórico no meio do caminho. Um personagem icônico adjetivado de “incólume” pelo parceiro Deltan quando disse: “a opinião pública é decisiva e é um caso construído com prova indireta e palavra de colaboradores contra um ícone que passou incólume pelo mensalão”. Não resisti, fui ao dicionário. Incólume é aquele sem lesão ou ferimento; livre de dano ou perigo; são e salvo; intato, ileso; que permanece igual, sem alteração; bem conservado, inalterado. (Putz!)

Era só o que faltava… Uma figura que se imaginava morta, não fora exterminada como planejado. São as presepadas da história se repetindo. E agora, que fazer? Será que os carrascos detêm os mesmos adjetivos, ou similares? Sairão eles “incólumes” ao incessante vazamento das suas conversas íntimas? Sobreviverá a imagem de heróis após o massacre midiático e o abandono pela CIA e EUA? Serão capazes de garantirem suas biografias, a despeito do mensaleiro, corrupto, chefe do “maior escândalo de corrupção do país” e que está preso em Curitiba?

Os tempos são difíceis. As interrogações são muitas. Mas as armações e mentiras são prisões para os que as arquitetam. No título do texto o prisioneiro já anunciava que o seu algoz estava “condenado e lhe condenar”, simplesmente porque se tornara refém, não só do plano traçado, mas o pior, já era vítima das ilações, argumentações e costuras criadas para sustentar as suas convicções, não comprovadas até hoje.

A história é o conhecimento pela investigação. Ela serve para nos situarmos no tempo, orientando-nos pelas referências do passado e alimentando perspectivas para um futuro amparado nessas referências. E os personagens, estes são intimamente investigados nos seus feitos e cada um responde por si. Cada um.

Sim, antes que me esqueça, “ícone” é o mesmo que ídolo, só que sem a capa de super-herói.

Francisco Jarismar de Oliveira (Mazinho)

Mazinho

Mazinho

Francisco Jarismar de Oliveira (Mazinho) é Licenciado em História pela UFCG; Especialista em Informática em Educação pela UFLA e Servidor Público Federal do IFPB.
[email protected]