Um triângulo quadrado em forma de círculo

Um triângulo quadrado em forma de círculo – imagem ilustrativa

Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no fato de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões. (Bertrand Russell)

Estamos cada dia mais próximos de um passado distante. A Idade Média (séculos IV e XVI) está renascendo das formas mais inusitadas que possamos imaginar. Em pleno século vinte um, quando um pé na lua já não exerce tão grande encantamento quanto as fotos das sondas espaciais – registrando a atmosfera e superfície de planetas nas fronteiras do sistema solar – o homem reaviva o terror da terra plana, do julgamento sumário e do poder dos mitos.

Os tempos atuais são de uma excentricidade cabulosa. Para alguns cientistas nossa espécie surgiu no orbe há 350 mil anos, aproximadamente. Isso se registrou lá nas terras da mãe África. Já o nosso comportamento “homo civilis” tem seu início há uns 50 mil anos atrás. De lá para cá, evoluímos e alcançamos níveis de conhecimento e intimidade com o nosso planeta, significativos. Treinamos nossa coordenação motora, domamos nossa selvageria, descobrimos a capacidade inventiva e co-criadora e avançamos, para além do mar oceano, ao cosmos. Somos, realmente, seres racionais.

Entretanto, mesmo após tempos sombrios e de pouca produtividade, que se delongaram por mil anos e deixaram heranças para a contemporaneidade, não nos desvencilhamos de algumas tralhas sociológicas da Idade Média que ainda persistem no mundo atual respaldadas no imbecilismo, na ignorância e na nesciosidade dos herdeiros da idade trevosa. Ainda opera-se, em alguns juízos, a fuga da realidade montando nas costas do herói, do salvador, do mito. Esse retardo do cotidiano medievo persiste, atualmente, em franco desafio à inteligência dos que sobreviveram ao pensamento do tempo das trevas.

Em pleno século XXI, diante da biotecnologia; da inteligência artificial; da impressão em 3D; dos carros autônomos; da robótica; da realidade virtual e aumentada; da internet das coisas; da edição dos genes humanos; de próteses para animais; do exoesqueleto; braço e olho biônicos; do sintetizador de voz (usado por Stephen Hawking) e dos planos de habitação fora do globo terrestre – fiquemos por aqui – o negacionismo científico e o desatino de alguns “líderes” se apresentam como ideologia corrente entre seus asseclas, à custa do pavor e sofrimento de milhões e da vida de centenas de milhares.

O conhecimento, os avanços e a contribuição da ciência para a evolução humana ao longo de toda história é imensurável. Negar esse fato é genético na descendência dos que criam no sangue de gladiadores contra epilepsia; que abelha era pássaro e castor era peixe; que bebês não sentiam dor; que um intervalo entre alturas de duas notas musicais (trítono) seria capaz de atrair o demônio – ouça a música “Black Sabbath”, da banda de mesmo nome e viva seu momento satânico; e que animais podem ser considerados criminosos… – Esta última crença é auspiciosa.

Sim, caro leitor. Bem antes do “Kit Gay” e da “Mamadeira de piroca”, lá na Idade Média, um animal podia ser intimado, levado a corte e julgado com direito a advogado, juiz e todo o plantel do espetáculo. Pergunto: serão esses os tempos que se avizinham? Seria a Terra um triângulo quadrado em forma de círculo, como alguns já voltaram a crer?

Por: Jarismar Oliveira (Mazinho)

Jarismar Oliveira (Mazinho)

Jarismar Oliveira (Mazinho)

Francisco Jarismar de Oliveira (Mazinho) é Mestre em Ensino pela UERN. Licenciado em História pela UFCG; Especialista em Informática em Educação pela UFLA e Servidor Público Federal do IFPB.

fjarismar@gmail.com