Matar crianças é pecado mortal!

“Não sai de fuzil na rua não. Troca por uma Bíblia, porque se você sair, nós vamos te matar”.
Wilson Witzel (PSL) – Gov. Rio de Janeiro

Na frase que abre o nosso texto, fica uma interrogação: para quem o governador mandava o recado? Qual o alvo de tão indecorosa ameaça? Pelo que assistimos, até agora, o número de pobres, favelados e negros mortos podem suscitar uma resposta. Mas, não consigo imaginar crianças que não estavam portando fuzil serem assassinadas. Seria a falta da Bíblia na mão?

O policial confundiu um pacote de saquinhos de pipoca com drogas ou armas. E assim, no dia 30 de junho de 2016, o adolescente Jhonata Dalber Mattos Alves recebia um tiro na cabeça, aos 16 anos, por engano. Antes e de lá para cá, o terror é o regime no Rio de Janeiro. Ainda em 2016 Janaina, a mãe de Jhonata, profeticamente desabafara: “O pacote anticrime só vai servir para pobres, negros e favelados.”

Segundo a ONG Rio de Paz, desde 2007, 57 crianças morreram vitimadas por balas perdidas. Os números denunciam uma matança incessante de nossas crianças, no Rio. Três, em 2007; duas, em 2008; uma, em 2010; duas, em 2011; duas, em 2012; três, em 2013; duas, em 2014; sete, em 2015; dez, em 2016; dez, em 2017! E dez, em2018!

Francisco Jarismar de Oliveira | Colunista

Só nos últimos quatro anos o número de mortes duplicou, se comparado aos oito anos anteriores, afirma a mesma ONG. Isso é o que se pode constatar de mais absurdo em uma nação! O Estado, que deveria garantir a segurança de suas crianças, mata-as. E o pior, ceifa vidas de forma indiscriminada, no rebolo de sua ânsia em aniquilar o mal que pra si mesmo produziu ao longo de décadas, e sobre o qual não tem controle: a violência.

Em 2019 (que ainda não terminou), já são cinco crianças vítimas dos confrontos de um Estado que convulsiona ao encontrar-se consigo mesmo. O Rio agoniza e os seus filhos mais pobres, favelados e negros pagam o preço da falência estatal com o medo, a desesperança. E agora, de forma cada dia mais ensandecida, com a vida de suas crianças. Isso não é normal em nenhuma sociedade terrena.

Em 2019, no mês de fevereiro, Jenifer Cilene Gomes, foi baleada em meio a uma troca de tiros, aos onze anos. Em março foi Kauan Peixoto, de 12 anos. Saiu pra comprar um lanche e, segundo familiares, foi “algemado e colocado em uma viatura” antes de ser morto. Kauan Rosário foi morto por um tiro durante um confronto entre policiais e bandidos no dia 10 de maio. No início do mês de setembro, Kauê Ribeiro dos Santos, 12 anos, morreu vítima de bala perdida.

E agora, Ágatha Félix, na noite de 06 de setembro, despede-se da vida aos 8 anos, atingida com um tiro nas costas. Não fossem os números e os relatos que antecedem este parágrafo essa seria uma notícia inacreditável. Não, não é fake news! É o Estado regurgitando a sua incapacidade administrativa, sua ignorância do bem estar social, seu preconceito contra as minorias, sua falência gerencial, sua aporofobia transmutada no discurso e na ação de eliminar os que se lhe figuram como “lixo social”.

As mortes de todas essas crianças não podem ser naturalizadas como efeito colateral do combate a violência, que o próprio Estado alimenta. Não serão as armas que nos conduzirão a paz, mas o cuidado com o próximo. Precisamos embalar o sono de nossas crianças e não, nunca, balear os seus sonhos. Já disse Jesus: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas”.

Senhor, perdoe-nos, porque pecamos!

Francisco Jarismar de Oliveira (Mazinho)

Mazinho

Mazinho

Francisco Jarismar de Oliveira (Mazinho) é Licenciado em História pela UFCG; Especialista em Informática em Educação pela UFLA e Servidor Público Federal do IFPB.
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