A mancha negra da nossa história

“A história da escravidão africana na América é um abismo de degradação e miséria que se não pode sondar.”
Joaquim Nabuco

Francisco Jarismar de Oliveira (Mazinho)|Colunista

A contribuição dos negros na formação sócio, política, cultural e religiosa da nação brasileira é fato indelével e inconteste. Deportado para as terras tupiniquins oriundos do continente africano e tendo oficialmente instituída sua condição de escravo por volta de 1530, pela Coroa Portuguesa, os negros e seus descendentes tiveram direitos sagrados e humanos desprezados em solo brasileiro. Um aspecto que atravessa o império, a república e chega até o tempo presente. O contexto de proteção e exploração das colônias portuguesas se assentava sobre o sofrimento e negação da dignidade humana aos negros arrancados de suas raízes e trazidos para cá. Os navios negreiros aportavam nas costas brasileiras trazendo em seus porões a podridão da, quase sempre, metade de sua carga morta. A economia colonial, fundamentada na grande propriedade e na monocultura, necessitava de mãos escravas para se sustentar. Esse modelo colonialista era uma fornalha a consumir milhares de vidas, chegando ao flagrante da mortalidade superar a natalidade, como afirma Celso Furtado em referência ao primeiro censo demográfico, realizado em 1872. Perpassados mais de quinhentos anos, ainda vivemos em uma sociedade compenetrada de preconceito e indiferença em relação ao respeito à vida dos afro-descendentes. Eis o deprimente primeiro quadro do sistema de escravocrata.

Foram mais de três séculos de trabalho escravo. Nesse período os negros foram a mola mestra de um sistema onde só ele, o escravo, respondia por tudo a ser feito. Desde a lavoura até a cozinha da casa grande, foram mãos e pés dos seus senhores. E ainda eram, – não obstante a exploração extenuante e violenta da sua capacidade física – tidos como moeda, mercadoria, como capital agregado ao patrimônio dos seus senhores com valor de troca ou uso como coisa, instrumento vivo de produção, fato esse a diferenciar-lhe de outras mercadorias.

O descontentamento com a servidão involuntária não tardou em alimentar os movimentos internos de revolta e busca da emancipação dos escravizados no período colonial, citemos a Revolta dos Malês em 1835, em Salvador, quando negros travaram uma luta política pelo respeito à liberdade, à cultura e contra a imposição do catolicismo. Também lutaram em movimentos revoltosos como Cabanada, Balaiada, Confederação do Equador, Farroupilha, até na guerra do Paraguai os negros e crioulos (negros nascidos no Brasil) empunharam armas junto às forças brasileiras. Capítulo à parte lembremo-nos dos quilombos, muito numerosos em todo o território brasileiro e que alimentavam nos escravos o sonho de liberdade, de amenização da dor. A fuga para esses redutos representava a possibilidade de se experimentar a sensação de poder sobre suas próprias vidas. O de maior destaque na luta contra a escravidão em nosso território foi o quilombo dos Palmares (1600-1695). Esta comunidade liderada inicialmente por Ganga Zumba e depois por seu sobrinho Zumbi, localizada em Alagoas e sul de Pernambuco, na Serra da Barriga, foi símbolo da resistência e de um verdadeiro estado livre negro dentro do Brasil colônia, agregando cerca de 20.000 escravos foragidos. O quilombo de Palmares sobreviveu por quase todo o século XVII.

A assinatura da Lei Áurea (1888), mesmo legalizando a liberdade aos negros escravos, contudo, não lhes assegurou nenhuma garantia social, nem mesmo humana. A liberdade vem tardiamente e sem qualquer expectativa de inclusão social. Passou a representar mais um fardo na vida dos negros quando veio desprovida de qualquer amparo de cidadania e em um momento em que as terras brasileiras recebiam imigrantes europeus em grande leva. A farta mão de obra negra, desprotegida da lei e combalida pelo desumano tratamento, agora enfrentava a concorrência do qualificado trabalhador italiano.

O sistema escravocrata no Brasil é uma mancha negra em nossa história e que ainda repercute no presente. O respeito, a valorização e a gratidão ao povo negro são relegados a uma escuridão histórica promovida pelos veículos de informação e comunicação. As cotas para negros e pardos são contestadas com reclames de igualdade entre brancos e negros, esquecendo-se que num passado recente o tronco e as chibatadas não foram democratizados. A exclusividade do banzo, da agonia, da humilhação foi toda do negro. E ainda permanecem. Em um país onde a maioria de sua população é negra, onde estão os presidentes, os congressistas, os governadores, os prefeitos, os vereadores negros? Nos iludem com o circo do futebol e a exposição erotizada da mulata. É tempo de resgatar a verdadeira contribuição do negro para esta atônita nação da América do Sul.

FRANCISCO JARISMAR DE OLIVEIRA (Mazinho)
Licenciado em História pela UFPB
Servidor Público Federal do IFPB

Mazinho

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Francisco Jarismar de Oliveira (Mazinho) é Licenciado em História pela UFCG; Especialista em Informática em Educação pela UFLA e Servidor Público Federal do IFPB.
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