290ml de insônia e cicuta

“Apeguem-se às coisas que são queridas ao seu coração (entre elas os amigos). Sem elas a vida carece de sentido.”      Brian Dyson – Ex-Presidente da Coca-Cola

Mesmo com um investimento anual em publicidade ultrapassando 4,2 bilhões de dólares, um lucro anual de aproximadamente 2 bilhões em dinheiro americano, estando presente em todos os continentes, em quase todos os países do globo (Cuba e Coréia do Norte ainda não a comercializam) e figurando nas prateleiras de todos os supermercados, mercearias, bodegas, bares, barracos, sambas, tertúlias, forrós no sítio, assustados, casa de drinks, motéis e cabarés, entre tantos outros estabelecimentos com vida em abundância, esse quase onipresente líquido refrigerante não serve como vacina contra a Covid-19.

Não. A Coca-Cola não nos salvará do contágio, tampouco dos óbitos da atual pandemia, o que é uma pena, diga-se de passagem. Mesmo que seja consumida quente – como em Hong Kong – para enfrentamento de gripes, mesmo assim a sua fórmula secreta não nos salvará da hecatombe em curso. Isso nos leva a uma imatura inferência: se a vacina estivesse na garrafinha de Coca-Cola, apenas dois países precisariam importar o precioso líquido e tudo estaria resolvido.

Mas não funciona assim, infelizmente. O mercado financeiro e sua desmedida ambição por dividendos não se importa com vidas, mas, sim, com lucros! Eis aí a nossa constatação, extraída a partir da tosca hipótese que arguimos logo acima. Sim, nós humanos somos capazes de nos abstrair a ponto de considerarmos à parte, nos alhearmos, a um raciocínio tão pueril – como o que ora apresentamos – quando nos vemos à beira de um precipício.

Contudo, às vezes essas ideações nos perseguem e ficamos e dispensar-lhe tempo e neurônios, como se não tivéssemos mais nada a fazer nesses tempos de isolamento e distanciamento social… Daí, vem a chatice em continuar o silogismo ao perguntarmos: seria a logística de produção, marketing e distribuição da The Coca-Cola Company capaz de imunizar toda a população humana, se na sua fórmula encerrasse o anti-coronavirus?

Estima-se que sejam consumidos 1,7 bilhão de litros de Coca-Cola por dia no mundo. Algo em torno de 620,5 bilhões de litros/ano. Segundo a multinacional Kantar (a empresa que mais entende como as pessoas pensam, sentem, compram, compartilham, escolhem e veem –  segundo a própria) a marca foi escolhida 6 bilhões de vezes, no ano passado, pelo consumidor final – Uau! Se somos apenas 7,79 bilhões de terráqueos (segundo a ONU) então, na minha matemática básica, fiz contas rápidas e avancei com a seguinte indução: de segunda a sexta-feira imunizaríamos quase todo o planeta com doses cavalares de 290ml da vacina em garrafas KS. No sábado e domingo seria a vez de Cuba e Coréia do Norte serem persuadidos à fórmula em garrafas PET, ainda sobrariam bilhões de doses para o resto de todos os anosfuturos, e pronto. Simples, assim!

Agora, após o arroubado surto, com os olhos na realidade e sem mais estultices, creio que vivemos de fantasias e ilusões neste mundinho que criamos. Não nos preparamos para a defender a vida, embora a todo instante afirmemos total disposição para tal. Os orçamentos de guerra e os investimentos bélicos e atômicos, para destruição dos semelhantes e o auto aniquilamento superam as cifras de 1,73 trilhões em moeda americana. Isso é apenas uma amostra das nossas prioridades…

A Coca cola, o Papai Noel e o ovo do coelhinho (o quê?!) da páscoa são mais atrativos e inebriantes que o pão, a educação e a saúde, para os miseráveis que sonham em tomar uma KS com 290ml de cicuta. Tudo isso nos desvia a atenção que deveríamos dar ao que realmente importa: a vida humana. O que mais temos é aquilo do que menos precisamos.

Por: Jarismar Oliveira (Mazinho)

Jarismar Oliveira (Mazinho)

Jarismar Oliveira (Mazinho)

Francisco Jarismar de Oliveira (Mazinho) é Mestre em Ensino pela UERN. Licenciado em História pela UFCG; Especialista em Informática em Educação pela UFLA e Servidor Público Federal do IFPB.

fjarismar@gmail.com