Quo vadis, mundi?

“Eu, tu e todos no mundo,
no fundo tememos por nosso futuro.
Et e todos os santos valei-nos,
livrai-nos desse tempo escuro.”
(Extra – Gilberto Gil)

“A solução pras favelas é jogar uma bomba atômica”, já dizia o general João Batista de Oliveira Figueiredo. Com essa frase reacionária, de extrema direita, conservadora e irresponsável o nosso general entreguista – que pediu para ser esquecido – exalava sua aporofobia e dava dicas para um futuro capitão. Eis o Brasil de hoje; sem a bomba atômica, mas com 80 tiros a fuzilar uma família inofensiva, negra e desarmada. Em um Estado de Exceção funciona assim: atira primeiro, interroga depois.

Para onde vais, mundo? Aonde esperamos ir com atentados terroristas dessa natureza? Não consigo imaginar pior situação. Ponha-se no lugar dessa família: indo a um chá de bebê, em descontraído momento de interação familiar no curso de uma viajem, criança a bordo, em plena zona urbana e a luz do dia… De repente, não mais que de repente, uma enxurrada de balas e os segundos aterrorizantes se somam a inexplicável execução de uma família. A morte pega carona na odiosidade histórica, no desprezo e no despreparo dos gatilhos das forças militares.

Para onde vais, mundo? Para onde queremos ir ao calar ante as chacinas assistindo, do confortável sofá na sala de tv, em silêncio, à bomba atômica do general Figueiredo sendo distribuída em pedacinhos, pequeninos, para todos os pretos, pobres, homossexuais, favelados, nordestinos? Se ela não está sendo entregue como ele imaginava, é por estar em nova embalagem e sendo distribuída na forma de ódio, ressentimento e frustração dentro do seio da nação brasileira, pelo alto escalão da sociedade.

Para onde vais, mundo? Para onde iremos quando a aversão aos não-ricos, não-brancos e não-heteros está camuflada em uma subliminar propaganda de que estes representam uma irascível ameaça as elites brasileiras? Eis o sintoma mais evidente do quão corrosiva é essa patologia social a desgraçar a vida de muitas crianças, jovens e adultos vítimas dos conflitos entre as forças armadas e os comandos nos morros de todo país. O atual capitão sugeriu, em campanha, “metralhar” a Rocinha para resolver os conflitos na comunidade.

Para onde vais, mundo? Enquanto marchamos para a violência ovacionada, no discurso e na execução de Marielle, Anderson, Evaldo Rosa dos Santos e de cada um que cai sob a mira dos fuzis militares? A Garantia da Lei e da Ordem resta estabelecida pela intolerância, truculência, barbárie e pelo sangue de inocentes.

Para onde vais, mundo? Ao passo em que elegemos o ex-fuzileiro naval Witzel, com promessas de “abater” com tiros “na cabecinha” todas as pessoas armadas de fuzis nas comunidades problemáticas da “Cidade Maravilhosa”? Cabendo ao soldado decidir quando atirar.

Aos incautos leitores uma informação: a polícia do Rio matou 160 pessoas no primeiro mês de 2019. Esse laboratório da GLO poderá se expandir pelo Brasil. É só continuarmos bem sentados em frente a TV e achar que isso só acontece lá, com os outros. Lembremos que, cá, temos pobres, pretos, pardos, índios, analfabetos, homossexuais, feministas e também… militares.

Termino com um alento de Gilberto Gil nos lembrando que “a raça humana é uma semana do trabalho de Deus…”. Que bom que ainda temos 43 semanas até o fim do ano para, somente depois, Deus sair em férias.

Francisco Jarismar de Oliveira (Mazinho)

Mazinho

Mazinho

Francisco Jarismar de Oliveira (Mazinho) é Licenciado em História pela UFCG; Especialista em Informática em Educação pela UFLA e Servidor Público Federal do IFPB.
fjarismar@gmail.com