O Centenário de Jackson do Pandeiro e aspectos de sua trajetória

Giovanny de Sousa Lima

Jackson do Pandeiro –“Chiclete com banana”

Eu só boto bebop no meu samba
Quando Tio Sam tocar um tamborim
Quando ele pegar
No pandeiro e no zabumba.
Quando ele aprender
Que o samba não é rumba.
Aí eu vou misturar
Miami com Copacabana.
Chiclete eu misturo com banana,
E o meu samba vai ficar assim:

Tururururururi bop-bebop-bebop
Tururururururi bop-bebop-bebop
Tururururururi bop-bebop-bebop
Eu quero ver a confusão
Tururururururi bop-bebop-bebop
Tururururururi bop-bebop-bebop
Tururururururi bop-bebop-bebop
Olha aí, o samba-rock, meu irmão
É, mas em compensação,
Eu quero ver um boogie-woogie
De pandeiro e violão.
Eu quero ver o Tio Sam
De frigideira
Numa batucada brasileira.

Onde tudo começou

O ano de 2019 foi declarado “Ano de Jackson do Pandeiro” pelo Governo do Estado da Paraíba, em homenagem ao centenário de um dos maiores e mais autênticos artistas da Música Popular Brasileira (MPB). Instrumento político-pedagógico-cultural para o desenvolvimento do mencionado centenário, foi sistematizado e institucionalizado em todo o território paraibano. Eis o decreto:

DECRETO Nº 38.694 DE 02 DE OUTUBRO DE 2018.

Institui o Ano Cultural Jackson do Pandeiro, a ser celebrado em 2019, e dá outras providências.

O GOVERNADOR DO ESTADO DA PARAÍBA, no uso das atribuições que lhe são conferidas pelos incisos II, IV e VI do art. 86 da Constituição Estadual e com fundamento no art.206 da Constituição Federal e na Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e considerando que em 31 de agosto de 2019 comemoraremos 100 anos do nascimento de José Gomes Filho (conhecido como Jackson do Pandeiro), paraibano que se destacou nacionalmente como cantor, instrumentista e compositor,D E C R E T A:

Art. 1º Fica instituído o ano de 2019 como “ANO CULTURAL JACKSON DO PANDEIRO”.

Art. 2º A Secretaria de Estado da Educação realizará atividades culturais e sócio esportivas no âmbito escolar, mobilizando alunos, professores, servidores e a comunidade circunvizinhada escola em homenagens e produção cultural acerca da vida e obra de Jackson do Pandeiro.

Parágrafo único. As atividades alusivas ao Ano Cultural Jackson do Pandeiro devem primar pela interdisciplinaridade, sem prejuízo do conteúdo regular, cabendo à direção da escola, se necessário, adotar providências para compatibilizar a carga horária.

Art. 3º Nos eventos promovidos pelo Governo, como shows, concertos, seminários,festivais, salões de artesanato e exposições, sempre que conveniente, deverá ser oportunizado ao público conhecer a obra de Jackson do Pandeiro, através de ações das secretarias e órgãos.

§ 1º Sob chancela da Secretaria de Estado da Comunicação Institucional, as açõesde divulgação dos órgãos e secretarias estaduais em anúncios de jornais, cartazes, folders, outdoors,panfletos e inserções veiculadas em emissoras de rádio e televisão e em novas mídias, como portais e sites, dentre outras, sempre que possível, farão referência ao “ANO CULTURAL JACKSON DO PANDEIRO”.

§ 2º Os espaços ou sistemas destinados ao uso coletivo e de frequência pública, geridos por instituições públicas estaduais, desde que conveniente, devem possibilitar o acolhimento de prática, criação, produção, difusão e fruição de bens, produtos e serviços culturais relativos à vida e obrade Jackson do Pandeiro.

Art. 4º Este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação.

PALÁCIO DO GOVERNO DO ESTADO DA PARAÍBA, em João Pessoa, 02 de outubro de 2018; 130º da Proclamação da República.

RICARDO VIEIRA COUTINHO
Governador

Em decorrência do referido recurso jurídico, inúmeras ações de grande e fundamental relevância para a realização das justas celebrações referenciadoras da vida e obra de Jackson do Pandeiro foram realizadas, e outras serão operacionalizadas até o final do corrente ano. Podemos destacar algumas já efetivadas, entre as quais: constituição e manutenção dinâmica da Comissão Estadual do Centenário de Jackson do Pandeiro; construção e institucionalização, em todo o território nacional, de um selo comemorativo ao aludido Centenário, produzido pelos Correios;produção de linda logomarca do Centenário do artista; realização de um espetáculo teatral – “O marco do Rei do Ritmo” – musical em cordel, apresentado dentro da programação da 10ª edição do Festival Internacional de Música de Campina Grande; produção de belíssimo e educativo documentário, denominado “Jackson, na batida do pandeiro”, que estará sendo exibido para o grande público no Festival Aruanda de Audiovisual Brasileiro, em dezembro, na capital paraibana; exposições em museus paraibanos sobre a vida e obra do artista; memorial do Rei do Ritmo em sua terra natal, Alagoa Grande-PB, intensifica a realização de inúmeras atividades para a celebração do Centenário; exposições em vários recantos do País – principalmente, em várias capitais do Nordeste Brasileiro, e cidades de porte médio – elucidativas sobre a trajetória do Rei do Ritmo, estão sendo efetivas para que seu legado artístico-cultural seja mais valorizado e mais conhecido pelas pessoas; centenas de quadrilhas juninas formalizaram inúmeras homenagens, muito válidas e belas, ao artista paraibano, durante o transcurso do São João e São Pedro, no corrente ano; várias orquestras, em inúmeras cidades brasileiras, estão também produzindo e realizando espetáculos em homenagem ao artista; produção e lançamento de livros, gerados por autores paraibanos, sobre Jackson do Pandeiro, no corrente ano: “A musicalidade de Jackson do Pandeiro”, de Inaldo Soares e “Jackson do Pandeiro: o rei do ritmo”, de Antônio Vicente e Fernando Moura; o prêmio Escola Nota 10, da Prefeitura Municipal de João Pessoa, homenageará o Centenário de Jackson do Pandeiro, com o tema “Jackson do Pandeiro: música e poesia da terra”; a Rádio Senado produziu e lançou o programa “100 Anos de Jackson do Pandeiro”; estão ainda engajados neste processo de celebração: Fundação Casa de José Américo, centros culturais do Banco do Nordeste e universidades públicas federais, como UFPB, UFCG e UEPB; além disso, a Fundação Espaço Cultural da Paraíba (Funesc) selecionou 47 propostas nas áreas de música, teatro, dança, literatura, cinema e cultura popular para um Festival de Artes que será realizado este mês, de 25 a 28 de julho, em João Pessoa, também em homenagem ao ritmista mundialmente conhecido E tudo isso é muito alvissareiro, importante e necessário!

Aspectos básicos de sua trajetória

A trajetória de José Gomes Filho (Jackson do Pandeiro) é assinalada pelo seu nascimento – na cidade paraibana de Alagoa Grande, em 31 de agosto de 1919 – e consequente inserção em núcleo familiar com pais, e outros membros da família, extremamente pobres. Contudo, de imensa dignidade e lutas permanentes pela sobrevivência. Inclusive, através da produção e manifestação artística-cultural como a realizada pela mãe deste multi-instrumentista, compositor, cantor, intérprete, ator, ritmista, genial, que aos oito anos de idade já tocava zabumba, se apresentando com sua mãe em feiras livres de Alagoa Grande.

As profundas adversidades econômicas e financeiras, processos de exclusões culturais e sociais, de que foi vítima na infância e adolescência, principalmente, e a realização de esforços, ações, atividades, para enfrenta-las, com criatividade, ousadia, persistência, trabalho amplo, moldaram, significativamente, as características de personalidade e identidade cultural do indivíduo, que anos mais tarde, já na maturidade, seria denominado e aclamado como Rei do Ritmo, devido sua imensa e comprovada competência no domínio da arte de compor, cantar, interpretar e tocar xotes, cocos, baiões, rojões, frevos, sambas, marchas carnavalescas, que amplamente incorporou ao seu pluralista e inovador universo musical.

De Alagoa Grande para Campina Grande, depois para o Rio de Janeiro e, posteriormente, circulando para suas apresentações magníficas pelo território nacional, Jackson do Pandeiro se inseriu, com todo o mérito, na seleta constelação das principais estrelas da Música Popular Brasileira, sendo reverenciado por artistas como: Chico Buarque de Holanda, João Bosco, Aldir Blanc, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Lenine, Elba Ramalho, Alceu Valença, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Gal Costa, e tantos outros que terminaram sendo influenciados pela obra “jacksoniana”.

E isso é, e deve continuar sendo, motivo de muito orgulho para todos nós que somos paraibanos. Que juntos possamos, permanentemente, estabelecer a defesa, proteção e promoção da obra multidimensional-cultural de Jackson do Pandeiro, difundindo-a, socializando-a e democratizando-a. Essa responsabilidade é de todos nós! Principalmente, de todos aqueles que amam e valorizam nossa autêntica Música Popular Brasileira.

Problematização básica

Como não considerar este ser humano admirável, que nasceu pobre, padeceu na pobreza, negro, analfabeto, que lutou criativamente a vida inteira com extrema dignidade, honestidade de propósito, perseverança e imensos esforços para sobreviver? Como negligenciar o fato de que Jackson do Pandeiro reinventou, técnica e esteticamente, o modo de tocar pandeiro e cantar cocos, xotes, sambas, baiões e outros gêneros musicais? É natural que se obscureça a concreta, louvável e bela influência musical que o Rei do Ritmo, genuinamente, construiu em relação a obra musical de inúmeros artistas da Música Popular Brasileira?

Conforme está comprovado no corpo deste modesto artigo, relevantes pesquisadores do campo científico nacional, principalmente das áreas de Letras, Artes e Música, História, Sociologia, Filosofia, em vários recantos do Brasil, têm se debruçado sobre a investigação e análise da obra “jacksoniana”. Enquanto na Paraíba, a maioria das escolas públicas e privadas, de Ensino Fundamental e Médio, através dos seus gestores, corpos de especialistas em Educação e professores, ainda não sistematizaram, nem desenvolveram, as necessárias atividades que possam proporcionar o elucidamento da riqueza cultural configurada pela obra de Jackson do Pandeiro.

As crianças, adolescentes e jovens paraibanos, principalmente, precisam conhecer a trajetória e obra deste grande artista paraibano e brasileiro. Não seria oportuna e necessária tal realização? A produção e manifestação da obra artística do Rei do Ritmo não seria uma sofisticada, inovadora, e heterogênea obra de cultura popular?

Breve percurso acadêmico pela obra do Rei do Ritmo: amostra simbólica

Dissertações de mestrado: “A Identidade Vocal de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro em Performance”, de Deneil José Laranjeira; “Na levada do pandeiro: a música de Jackson do pandeiro entre 1953 e 1967”, de Manuela Fonsêca Ramos; “Jackson do Pandeiro o Rei do Ritmo: A construção de um artista-monumento”, de Lucilvana Ferreira Barrose Roberg Januário dos Santos; “Dribles e divididas nas práticas interpretativas vocais de Jackson do Pandeiro”, de Cláudio Henrique Altieri de Campos; “Práticas e representações nordestinas na musicografia de Jackson do Pandeiro (1953-1981)”, de Glauber Paiva da Silva; “A performance do Coco Sebastiana: um rito de passagem na trajetória artística de Jackson do Pandeiro”, de Claudio Henrique Altieri de Campos; “Os forrozeiros e seu outro feminino: a constituição discursiva de estereótipos da mulher em canções de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Dominguinhos”, de Maria Neide Alves da Silva; entre outras.

Teses de doutorado: “Jackson do Pandeiro e a Música Popular Brasileira: liminaridade, música e mediação”, de Cláudio Henrique Altieri de Campos; “Marxismo e pós-colonialismo na leitura da cultura popular nordestina: uma reflexão a partir da obra de João do Vale, José Cândido e Jackson do Pandeiro”, de Marina Alves Dutra.

LPs e músicas de sucesso: breve roteiro

Em 1953 gravou seus primeiros sucessos: “Sebastiana” (Rosil Cavalcanti) e “Forró em Limoeiro” (Edgar Ferreira). Sua influência é até hoje sentida em artistas que regravam as músicas que Jackson celebrizou, como “O Canto da Ema”, gravada por Lenine, “Na Base da Chinela”, por Elba Ramalho, “Lágrima”, por Chico Buarque, ou “Um a Um”, pelos Paralamas do Sucesso. Compositor inspirado e instrumentista de raro talento, popularizou outros clássicos da música nordestina, como “Chiclete com Banana” (Gordurinha/ Almira Castilho), “Xote de Copacabana” (José Gomes), “17 na Corrente” (Edgar Ferreira/ Manoel Firmino Alves), “Como Tem Zé na Paraíba” (Manezinho Araújo/ Catulo de Paula), “Cantiga do Sapo”, “A Mulher do Aníbal”, “Ele Disse” (Edgar Ferreira) e “Forró em Caruaru” (Zé Dantas). A seguir, apresentamos sua discografia, disponível no site Discogs.com.No total, foram 29 anos de carreira artística, tendo passado por inúmeras gravadoras.

1955 – Jackson do Pandeiro com conjunto e coro ‎
1958 – Forró do Jackson ‎(LP, Album)
1960 – Sua Majestade – O Rei Do Ritmo
1960 – Cantando de Norte a Sul ‎(LP, Mono)
1961 – Jackson do Pandeiro – Mais Ritmo
1961 – Melodia, Ritmo e Personalidade
1962 – A alegria da casa! ‎(LP, Album)
1962 – É Batucada! (LP, Album, Mono)
1963 – Forró do Zé Lagoa ‎(LP)
1963 – Caminho da Roça (LP, Mono)
1964 – Tem Jabaculê (LP, Album)
1964 – E vamos nós! (LP, Album)
1964 – São João no Brejo (LP)
1965 – Coisas nossas (LP)
1966 – O Cabra da Peste
1967 – É sucesso ‎(LP, Album)
1967 – A Braza do Norte ‎(LP)
1970 – Aqui tô eu ‎(LP, Mono)
1972 – Sina de cigarra ‎(LP, Album)
1973 – Tem mulher, tô lá ‎(LP)
1974 – Nossas raízes ‎(LP, Album)
1975 – A tuba da muié ‎(LP)
1977 – Um nordestino alegre ‎(LP)
1978 – Alegria minha gente ‎(LP)
1981 – Isso éque é Forró!

Conclusão

Durante excursão empreendida pelo país, Jackson do Pandeiro que era diabético desde os anos 60, morreu aos 62 anos, em 10 de julho de 1982, na cidade de Brasília, em decorrência de complicações de embolia pulmonar e cerebral. E lá se vão 37 anos de saudade deste artista brilhante…

Consciente da natureza simbólica do presente artigo, sobre a trajetória de Jackson do Pandeiro, sugiro a todos os leitores, bem como, e especialmente, aos meus educandos, que busquem com prazer e criteriosamente o aprofundamento de conhecimentos e saberes sobre a vasta obra deste inigualável paraibano. Hoje, cidadão do mundo. Jackson do Pandeiro vive! Viva o Rei do Ritmo! Viva as celebrações do seu centenário! Viva a Música Popular Brasileira!

Referências

CLIQUE MUSIC. Jackson do Pandeiro. Acesso em: 04/07/2019. Disponível em: http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/ver/jackson-do-pandeiro
DISCOGS.COM. Jackson do Pandeiro: Discography & Songs. Acesso em: 04/07/2019. Disponível em: https://www.discogs.com/pt_BR/artist/186477-Jackson-Do-Pandeiro
MUSIXMATCH.COM.Letras: Jackson do Pandeiro – “Chiclete com banana”. Acesso em: 04/07/2019. Disponível em: https://is.gd/d3Ombz
PARAÍBA. Diário Oficial do Estado da Paraíba. Nº 16.716 (03.10.2018). Acesso em: 04/07/2019. Disponível em: https://is.gd/oxopml

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima é Mestre em Educação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); especialista em Educação em Direitos Humanos e para os Direitos Humanos, também pela UFPB; psicólogo educacional; pedagogo; professor do Ensino Médio e do Ensino Superior em instituições da rede privada de João Pessoa, nas últimas três décadas; e ex-professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).Também é escritor e radialista.

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