Breves reflexões sobre a imprescindível Cultura de Paz

A Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou, em 1997, o ano de 2000 como o Ano Internacional da Cultura de Paz. Em 1998, declarou o período de 2001 a 2010 a “Década Internacional da Cultura de Paz e Não-Violência para as Crianças do Mundo”. Não se pode deixar passar em branco este incentivo para a paz.

Antes, tem-se que apropriar deste período para disseminar, com determinação, empenho e muita esperança. A Cultura de Paz na nossa sociedade precisa ser sustentável em todos os sentidos, especialmente com relação às nossas crianças. Podemos incentivá-las, através do nosso exemplo vivenciado no nosso cotidiano e estimulando práticas de não violência, de solidariedade, de harmonia e de comunhão, a imbuírem-se de um estilo de vida pacificador, elevando a qualidade da convivência entre todas as pessoas de diferentes culturas, credos, opiniões e raças.

Para introduzir a Cultura de Paz entre as pessoas, a educação representa um instrumento valioso, à medida que, através dela, podem-se educar crianças, adolescentes, jovens e adultos para formarem gerações de pacifistas capazes de, em suas discussões e negociações, promoverem o diálogo, a argumentação e a cooperação. Ter-se-á, então, verdadeiros mediadores da paz, e não pessoas que não sabem resolver o dissenso e conflitos, a não ser na base da agressão e do autoritarismo.

Por isso, é necessário vivenciarmos de fato e pra valer um novo estilo de convivência com as diferenças, mostrando que é possível respeitar distintas opiniões e ideias não semelhantes, compartilhar sonhos e buscar alcançar objetivos e metas comuns, vivendo em paz.

O Relatório da UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI aponta os Quatro Pilares da Educação do Futuro que são fundamentais para se construir e estabelecer uma Cultura de Paz de forma sólida. Eles são: aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a viver junto; e aprender a ser.

Se, antes de tudo, se aprende que o ser vale mais que o ter, se se aprende a conhecer o que não se conhece, se se aprende a fazer aquilo sobre o que não se tem domínio e se se aprende a viver junto uns com os outros, está feito o alicerce para se dar consistência aos princípios explicitados no “Manifesto 2000 por uma Cultura de Paz e Não-Violência”, esboçado por um grupo de laureados do prêmio Nobel da Paz, quais sejam: respeitar a vida; rejeitar a violência; redescobrir a solidariedade; ser generoso; ouvir para compreender; e preservar o planeta.

A violência (ato de violentar, constrangimento físico ou moral ou ainda uso da força ou da coação) sempre existiu e continua existindo no cotidiano da sociedade contemporânea. Então, o que vem mudando, para que muitos se debrucem no estudo e na busca das tentativas de solução? Mudou o olhar que a sociedade está lançando sobre esta temática.

Constatamos que ao longo da história um verdadeiro império de violências se organizou, em seus diversos segmentos: drogas, terrorismo, aborto, prostituição infantil, o crime organizado, as guerras, etc. Entretanto, apesar dos homens de bem, incluindo aí os pacifistas, terem empreendido intrépidos esforços na construção da Paz e do inestimável legado de contribuições a favor da pacificação, ainda não se tornou possível a implantação da organização da Paz no planeta.

O mundo paga um preço muito alto por ausência de Paz. A história da vida humana neste planeta dista de nós cerca de mais de dois milhões de anos. De todo este tempo para cá, ainda não conseguimos viver uma hora sequer de plena Paz na face da Terra. Chegamos ao final do século XX e alcançamos a soma de mais de quinze mil guerras, perpetradas por todos os povos.

Como se não bastasse, o século anterior foi o mais sangrento de toda a nossa história. Foi o período em que mais se matou ser humano, sendo a maioria das vítimas, civis inocentes. As principais nações do mundo se armaram portentosamente, com a construção de ogivas nucleares, armas químicas e biológicas, projetando a indústria bélica como a maior potência econômica do mundo.

Ainda hoje, segundo dados da UNESCO, existem sessenta e oito focos de guerras ativos sobre o planeta. Os gastos efetuados para a manutenção destes conflitos seriam suficientes para erradicar a fome e a miséria de nosso planeta em pelo menos dez vezes.

Alcançamos elevados níveis de progresso tecnológico, conquistamos o espaço e povoamos a Terra com seis bilhões de habitantes, contudo dois bilhões e seiscentos milhões de pessoas são despossuídas, vivendo abaixo da linha da pobreza. Quinze milhões de pessoas morrem de fome anualmente no mundo, inclusive crianças indefesas, quinhentos milhões são subnutridas. Estes quadros representam o paradoxo da ausência de paz social.

Destruímos as florestas, extinguimos diversas espécies vegetais e animais. Secamos numerosos rios e lagos, abrimos a camada de ozônio, depositando na atmosfera anualmente seis bilhões de toneladas de dióxido de carbono e de outros gases que provocam o “efeito estufa,” desencadeando assim alterações climáticas de consequências imprevisíveis para a coletividade humana. Isto se agrava na medida em que estes gases levarão pelo menos setenta anos para se dissiparem na atmosfera. Este é o espelho em que se reflete a ausência de Paz ambiental.

Há muitas crises e medos à nossa volta. Assistimos dia a dia a ascensão da violência urbana e no campo; a expansão do crime organizado e do narcotráfico, a prostituição infanto-juvenil; a legalização da prática criminosa do aborto, em setenta por cento das nações do mundo e outros terríveis subprodutos das sociedades infelizes que se integram com a miséria, a agressividade e o medo…

Conduzidos pela indiferença e pela omissão, a maioria das pessoas não se dão conta de que também são responsáveis pela permanência e expansão de todas estas formas de violência. É na omissão dos bons que os maus prosperam.

A Cultura de Paz, com seus paradigmas, princípios, fundamentos, em nosso entendimento, constitui-se em importante instrumento político-pedagógico, exequível de domínio e utilização, principalmente no complexo, dinâmico, mutável e desafiador espaço escolar, como atributo, inclusive, capaz de gerar a mediação de conflitos e criar situações e condições ensejadoras, verdadeiramente, da paz, a ser vivenciada por todos os indivíduos que, direta ou indiretamente, integram as comunidades escolares e extraescolares.

No que concerne ainda sobre a Cultura de Paz, se compreendida sistemática e amplamente, e bem executada político-pedagogicamente pelos trabalhadores da Educação, possivelmente, pode favorecer mudanças e transformações substancialmente importantes nas relações sociais que se estabelecem cotidianamente para além do espaço escolar. Possuindo elementos filosóficos, sociológicos, pedagógicos e políticos, em seus fundamentos, a Cultura de Paz, assim compreendida, termina por facultar os meios para o desenvolvimento de ações de efetivo valor educativo e cultural no enfrentamento das violências na escola e da escola, minimizando-as e até eliminando-as.

A violência, enquanto antítese da defesa, proteção e promoção da vida, dos Direitos Humanos e da cidadania, é na sua origem multifacetada e, por extensão, pluralisticamente impactante como um grande desafio, que obviamente pode e deve ser, com compromisso e responsabilidade, não apenas objeto de preocupações, mas de ações concretas, político-pedagógicas, a serem construídas coletivamente pelos trabalhadores da Educação, acima de tudo nos espaços escolares e comunitários.

No Brasil a realidade também se produz e reproduz clarificada por atos de vandalismo, roubos, furtos, portes ilegais de armas por parte, principalmente, de alunos, degradação de equipamentos públicos, agressões físicas e verbais à colegas e professores, entre outras manifestações as quais, praticamente, ganham corpo e dimensão através da imprensa escrita e audiovisual local, envolvendo tanto escolas da esfera pública (municipal e estadual) quanto da esfera privada. E exigindo de gestores, especialistas em Educação e, principalmente, professores, mais qualificação de suas competências, aptidões, habilidades, para compreensão, enfrentamento e equacionamento de tão complexo problema.

A Cultura de Paz não é uma panaceia, um remédio total e fatal para a pluralidade de doenças sociais que afetam a Nação Brasileira, mas uma possibilidade fidedigna para que, principalmente, educadores redimensionem ou reinventem suas práticas profissionais, por extensão suas relações sociais, acrescentando, de forma eficiente e eficaz, novas oportunidades de qualificação dos processos educativos e da própria Educação.

Assim, para que possamos internalizar e retroalimentar uma compreensão político pedagógica das violências que permeiam o contexto de inúmeras unidades educacionais, acima de tudo, em nossa sociedade, se faz realmente necessário situar tão amplo problema dentro do seu campo de complexidade. As violências nas escolas estão contidas nas relações humanas, nas práticas sociais desumanizadoras, nas relações sociais mercantilizadoras, autoritárias, anti dialógicas, efetivadas por um indivíduo sobre outro, ou por grupos de indivíduos sobre outro grupo de pessoas.

São relações de negação das qualidades, virtudes, potencialidades e direitos do outro, que comumente termina por ser mistificado, silenciado, excluído. É importante, portanto, que seja construído sistemático e democrático trabalho com os profissionais da Educação e educandos, enfim, com todos os membros da comunidade escolar, envolvendo parcerias e alianças com as redes de proteção social, as quais estejam comprometidas, verdadeiramente, com a proteção e promoção dos direitos das crianças, adolescentes e jovens, objetivando a construção de relações sociais para uma nova sociedade, mais justa, igualitária, democrática e fraterna, na sua multidimensionalidade.

Ninguém, portanto, origina-se e desenvolve-se vocacionado para a paz ou a violência. Ambas são produções, construções culturais, materializadas historicamente. A paz, portanto, pode e deve – amparada em pressupostos da Pedagogia Progressista e na Educação em Direitos Humanos e para os Direitos Humanos – ser estudada, pesquisada, ensinada, aprendida e vivenciada na teoria-prática por todos os indivíduos, para além inclusive, do espaço escolar, obviamente sem o negligenciamento, mascaramento, das adversas condições em que sobrevivem os explorados, oprimidos e excluídos, de um modo geral, em nossa sociedade. Que a Cultura de Paz possa se constituir de anúncios emancipatórios, compatibilizados por denúncias políticas-pedagógicas irretocáveis, fecundas e humanizadoras. Essa simbiose é árdua, complexa, todavia, possível de viabilização.

Podemos entender a Cultura de Paz como um processo que envolve comportamentos, valores, sentimentos, visões de mundo, paradigmas de um outro fazer pensar e agir–que têm como essência a resolução pacífica dos conflitos, a partir do reconhecimento de si mesmo e do outro, ambos contextualizados na comunidade dos seres vivos. Reconhecer os conflitos e resolvê-los sem violência e construir a cultura de paz implica necessariamente em estabelecer outras formas de convivência, do viver entre diferentes, do funcionamento democrático com participação plena, e decidir sobre os fazeres socioculturais e compartilhamentos de saberes e experiências nas comunidades.

Trata-se de um processo muito mais complexo do que o combate à violência direta, estrutural e cultural/simbólica. Por isso, também a cultura de paz é mais que um simples tema – são visões de mundo, filosofias do viver em comum, paradigmas de novo processo civilizatório.

Um dos maiores desafios contemporâneos é construir processos socioculturais com ações, pensamentos, metáforas, símbolos, contextualizados em cenários de paz. O conflito precisa ser reconhecido: ele existe, mas não será necessário transformá-lo em disputas violentas.

Enfim, no contexto da sociedade brasileira, historicamente permeada pela violência e violação dos Direitos Humanos, engendradas pelas classes dominantes, principalmente contra as camadas populares, é imprescindível e inadiável, na teoria-prática, materializarmos a Cultura de Paz na sua multidimensionalidade (didática, educativa, moral, político-pedagógica-progressista e técnico-científica). Inclusive, para edificação de um outro mundo possível!

Vale salientar que este colunista é autor da obra “Cultura de Paz no contexto escolar: uma abordagem político-pedagógica”, editado pela Amazon (www.amazon.com.br) e disponível no formato impresso e eletrônico (e-Book Kindle). Para ter acesso, basta clicar no link a seguir: https://is.gd/nHOCX0. A obra é resultado de estudos, pesquisas e vivências, abordando a temática a partir da Pedagogia Progressista e da Educação em Direitos Humanos e para os Direitos Humanos.

Giovanny de Sousa Lima
Mestre em Educação, pedagogo e professor.
Contato para a coluna: [email protected]

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima é Mestre em Educação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); especialista em Educação em Direitos Humanos e para os Direitos Humanos, também pela UFPB; psicólogo educacional; pedagogo; professor do Ensino Médio e do Ensino Superior em instituições da rede privada de João Pessoa, nas últimas três décadas; e ex-professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).Também é escritor e radialista.

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