Breve enfoque multidisciplinar sobre a Paz: sua importância e necessidade de construção para um outro mundo possível

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente,
Os homens presentes, a vida presente.

(Carlos Drummond de Andrade)

A história da humanidade também tem sido caracterizada pela busca de milhares de pessoas objetivando a defesa, proteção e promoção da paz, tanto no plano individual quanto no coletivo. Inclusive, como contra hegemonia aos conflitos, autoritarismos, violação de direitos, revoltas e também até guerras que as impactam.

Esta procura pela paz não seria uma tentativa dos seres humanos construírem sentidos para suas existências? Como o fundamental é ser feliz, é viável a existência de felicidade individual ou coletiva com ausência da paz? Como as pessoas não são anjos nem demônios, homens e mulheres não precisariam conquistar uma boa formação e serem virtuosos para poder conviver em paz? Sem uma plena compreensão da realidade que nos envolve, poderemos encontrar a paz? Não seria necessário que todos os seres humanos fizessem escolhas conscientes e livres para defesa, proteção e promoção de todas as formas de vida? É possível a existência de sociedades prósperas quando as pessoas comumente não são solidárias umas com as outras? É viável sentir, pensar, fazer a paz sem sermos felizes? Qual a legitimidade, fidedignidade, das práticas sociais autoritárias, perversas e covardes, desenvolvidas por agentes federais de segurança do Estado Brasileiro contra a liberdade de expressão e manifestação de estudantes que defendiam o ressurgimento do Estado Democrático de Direito no Brasil, na década de 80, de modo pacífico? Estariam tais agentes da repressão e opressão política, hoje, em paz, enquanto adeptos da cultura do ódio e antipaz que volta a infelicitar a Nação Brasileira no presente?

Outro aspecto que julgo importante considerar é que num mundo em constante transformação, impulsionado principalmente pela revolução científica e tecnológica vigente; globalismos e desenvolvimento do neoliberalismo, com impactos profundamente nefastos na vida de milhões de pessoas; precisamos nos alimentar e nos perfumar com genuína essência da paz para ressignificar nossas vidas e podermos transbordar de potência, positividade, a existência dos outros. A conquista da paz exige que possamos nos refazer, reinventar, diante das adversidades e do tempo/história que nos envolve. Exige equilíbrio e lucidez, diante da pluralidade de contradições impostas pela contemporaneidade, na qual todos nós estamos inseridos. Imprescindível ainda é questionar como viabilizar a paz no contexto de relações de poder autoritárias, anacrônicas, espúrias, corruptas e corruptoras, que impactam milhares de almas e corpos, principalmente nesta nossa América Latina, e de forma mais preponderante no Brasil dos dias atuais.

A paz, caros leitores e amigos, só pode estar e ser associada à vida digna. Por isso mesmo, é fundamental que possamos construir, coletivamente, situações e condições asseguradoras de um patamar de dignidade para todos(as). Todos nós temos o direito inalienável de vivermos e convivermos em paz, no lugar, região, ou país que nascemos e vivemos. Não admitamos, portanto, que o Estado, governos, grupos de pessoas, instituições, autoridades, quaisquer que sejam, nos roubem ou violem tão fundamental direito. Em vez do Estado Brasileiro estar flexibilizando e assegurando claramente a maior posse e circulação de armas no Brasil, deveria, ao contrário, promover o acesso gratuito, amplo e democrático há milhares de livros e abertura de centenas de bibliotecas no País, para evolução do patrimônio, educacional, cultural, político e científico de todos os membros da Nação Brasileira.

Quanto maior for a circulação de armas, maior será o número de mortes que deverão ocorrer em nossa sociedade. Se há um tempo/história para a vivência teórico-prática da paz, este, é o tempo todo. Tempo integral, permanente, em qualquer recanto de nosso País e do nosso planeta. Mesmo que alguns autoritários, totalitários, negacionistas, fascistas, racistas, xenófobos, fanáticos, fundamentalistas “políticos”, “culturais” e “religiosos”, não desejem a paz, essa continuará sendo requerida, reinventada, como expressão autêntica que deve se sobrepor à cultura do ódio, à morte, à necropolítica.

No seu importante trabalho “Revisão Sistemática Sobre a Produção da Paz”, André Amorim Martins professor do Curso de Psicologia da Universidade do Estado de Minas Gerais, aborda com bastante pertinência múltiplos conceitos da paz, que ajudam a compreensão de sua importância, validade e essencialidade. Ei-los:

Analisando as concepções ou tradições de paz ao longo da história, Souza, Mocelim, Trindade, e Sperb (2006) propõem inicialmente que a concepção ocidental de paz que predomina atualmente é “ausência de algo” (de guerra, violência, conflito) ou como intervalo entre guerras. Com isso, os autores salientam que esta leitura seja superada em direção a uma conceituação mais positiva calcada em experiências humanas como a justiça e a igualdade. Souza (2007), ao analisar os trabalhos que se dedicam à paz, apreende a partir deles que há três maneiras básicas de alcançá-la: através do peacemaking, com o uso de técnicas de resolução de conflito para promover reconciliação das partes envolvidas; do peacekeeping, com a obtenção de paz pela força (por exemplo, quando o exército é chamado para interferir em conflitos armados ou, no caso da realidade brasileira, em rebeliões nos presídios ou contra traficantes de drogas); ou do peacebuilding, através do qual se pretende despertar o “desejo por paz na mente das crianças”. Galtung (1969, citado por Souza et al., 2006), considera que o conceito de paz possui duas dimensões: “paz negativa” (ausência de violência física ou direta) e “paz positiva” (quando há cooperação, justiça, solidariedade). A paz positiva inclui ainda a “ausência de violência estrutural ou indireta”, definida como “uma forma de violência implícita que permeia as estruturas socioeconômicas e políticas de uma sociedade, sendo tão danosa quanto à violência direta, uma vez que também ofende e mata, porém, lentamente, privando os indivíduos da possibilidade de satisfazerem necessidades básicas à sobrevivência” (Christie et al., 2001 citado por Souza et al., 2006, p.14). Em pensamento similar, Maldonado (1997, citado por Souza et al., 2006) afirma que a construção da paz e a redução da violência se dão por meio da participação da comunidade, do reforço de características de paz existentes em diversas culturas e indivíduos e de novos meios de resolução de conflitos. Para a autora, a prevenção da violência deve começar nos pequenos atos do cotidiano, estendendo-se até interações sociais mais amplas. Percebe-se aí que a ação vai do “micro” para o “macro” e depende do interesse dos próprios indivíduos que compõem a sociedade. A visão de paz para D’Ambrosio (2001), diz que “há várias maneiras, técnicas, habilidades de explicar, de entender, de lidar e de conviver com (matema) distintos contextos naturais e socioeconômicos da realidade (etnos)” (D’Ambrosio, 2001, pág. 13). Frente a isto, o autor defende que a busca de paz total deve ter como base uma educação voltada para a paz, onde o conhecimento esteja subordinado ao humanismo: se a ciência tem como objetivo primeiro servir ao homem, se deixar de fazê-lo perde sua essência e sentido de existir. (MARTINS, 2016, p-72-73).

Não compartilho com a noção sofismática, determinista, diletantista,hipócrita, que falseando as gravíssimas adversidades cotidianas, vivenciadas por milhares de pessoas no Oriente Médio, Ásia, África, América Latina e, principalmente, Brasil, afirmar ser possível a existência de paz individual e coletiva com pessoas concretamente afundadas, na sua maioria, em múltiplos sofrimentos – trucidadas, aniquiladas pela pobreza, miséria absoluta, fome, injustiças sociais, exploração e opressão, as quais, evolutivamente, naturalizadas e banalizadas pelos detentores do poder. Nestas circunstâncias, não possibilidade mínima da paz ser combustível ou fermento para milhares de almas/corpos, em vários recantos do Brasil e do mundo.

Percebe-se, portanto, que não há, nem haverá, luta verdadeira pela defesa, proteção e promoção da paz com negligenciamento, omissão, conivência, em relação a tudo e a todos que atentam contra a liberdade, a democracia, a dignidade das pessoas, os Direitos Humanos. A luta pela paz requer coragem, ousadia, coerência, determinação. É essencial anunciá-la, reinventá-la, mas, compatibilizando tal prática com as necessárias denúncias de todos que praticaram e praticam violências e violações de Direitos Humanos.

A paz não está dissociada da luta contra a impunidade para os crimes praticados contra um ser humano, ou seres humanos, em qualquer parte do Planeta Terra. Deve ser operacionalizada, acima de tudo, enquanto construção coletiva. Adicionalmente, estejamos atentos e não deixemos de perceber: alguns lutam pela paz; outros pelos seus próprios interesses.

Quantos somos e onde vivemos: a paz e a realidade brasileira vigente

Em 2021, somos mais de 210 milhões de habitantes, situados em mais de 5.570 municípios. Pelo que já foi exteriorizado neste modesto artigo, é inegável a edificação da paz tanto no plano individual como no coletivo. Contudo, não se enfatizaaquia paz dos cemitérios; a paz como abstração, omissão, conivência, diante das mazelas, deformações históricas e violências que ainda hoje – transmutadas, transfiguradas – continuam a permearo tecido social da Nação Brasileira, infelicitando milhares de existências. Considera-se que são gravíssimas as dificuldades, problemas, entraves, para a construção e desenvolvimento da paz em nossa sociedade. Todavia, retroalimentemos de esperança, verdadeira educação humanizadora, e evolutiva capacidade de organização e lutas, para continuarmos trilhando o caminho da paz e pela paz.

Eis as dificuldades e problemas que se constituem no contexto brasileiro, verdadeiros e grandes entravespara a construção e vivência da paz, admitindo, obviamente, que os mesmos não são intransponíveis e, necessariamente, precisam ser superados: dependência econômica, financeira e tecnológica aos centros hegemônicos do capitalismo mundial; grandes disparidades econômicas regionais; reais e profundas desigualdades sociais; monopólio dos meios de comunicação de massa em mãos de poucas famílias; concentração avassalado de renda e riqueza em mãos de poucas pessoas; ausência vigente de uma diplomacia competente, eficiente e democrática, que estabeleça relações dignificadoras para uma melhor inserção do Brasil no cenário internacional; produção e manifestação de ataques ferozes à jornalistas e à imprensa brasileira, de modo irracional e injustificável, feita por membros do atual governo federal e parte sectária dos seus apoiadores; acentuado processo de exclusões econômicas, políticas, culturais, sociais, das etnias indígena, negra, e minorias sociais; deseducação de significativa parcela da população brasileira (analfabetismo absoluto e analfabetismo funcional); preconização da discriminação preconceituosa, por inúmeras instituições, grupos sociais, e até algumas autoridades e meios de comunicação; destruição progressiva dos principais ecossistemas e biomas do País, por notória incompetência dos que fazem o atual governo federal; a existência de grandes bolsões de pobreza contornando, principalmente, as metrópoles e cidades de porte médio; falência da promessa da segurança pública; retrocessos praticados pelo Estado Brasileiro na defesa e proteção dos Direitos Humanos; elaboração e propagação, acima de tudo nas redes sociais, de redes de notícias falsas, concepções negacionistas, fundamentalismos religiosos, múltiplas manifestações de intolerâncias, crimes cibernéticos, violação da liberdade de expressão e manifestação do pensamento; manutenção de profundos contrastes econômicos, políticos, sociais, e cultos frequentes as suas naturalizações; acentuada estratificação social; implementação sistemática de retrocessos no desenvolvimento de políticas públicas, efetivadas pelo atual governo federal; evolução do crime organizado, milícias e estado paralelo, principalmente nas comunidades periféricas das metrópoles; panorama pandêmico da Covid-19 apontando, de forma trágica e inconcebível, que até o final do corrente ano o Brasil poderá ter, aproximadamente, e de forma lamentável, 1 milhão de mortos; racismo estrutural e institucional; banalização e naturalização de diversas práticas de violência nas redes sociais; democracia, cotidianamente, ameaçada; estarrecedora exploração sexual da infância e adolescência; trabalho infantil e trabalho escravo predominando em pleno século XXI; desrespeito e violação de direitos dos idosos e pessoas com deficiência; além de pluralidades de violências que, afirma-se para os céticos e negacionistas, estão contidas nos relatórios fidedignos a seguir:

Mapa da Violência – Série de estudos

https://flacso.org.br/?project=mapa-da-violencia

Atlas da Violência (2020)

https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/download/24/atlas-da-violencia-2020

A violência LGBTQIA+ no Brasil (2020)

https://www.fgv.br/mailing/2020/webinar/DIREITO/Nota_Tecnica_n.pdf

Relatório de Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil (2020) https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2021/01/relatorio_fenaj_2020.pdf

Dossiê dos assassinatos e da violência contra pessoas trans. (2020)

https://antrabrasil.files.wordpress.com/2021/01/dossie-trans-2021-29jan2021.pdf

Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2020)

https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2020/10/anuario-14-2020-v1-interativo.pdf

Relatório – Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil (2019)

https://cimi.org.br/wp-content/uploads/2020/10/relatorio-violencia-contra-os-povos-indigenas-brasil-2019-cimi.pdf

Conflitos no Campo Brasil (2019)

https://www.cptnacional.org.br/component/jdownloads/summary/41-conflitos-no-campo-brasil-publicacao/14195-conflitos-no-campo-brasil-2019-web

Mapa da violência contra a mulher (2018)

https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/comissao-de-defesa-dos-direitos-da-mulher-cmulher/arquivos-de-audio-e-video/MapadaViolenciaatualizado200219.pdf

É fundamental que as pessoas realmente preocupadas, sensíveis, comovidas e dispostas a cooperar para mitigar estas violências, claramente investigadas, denunciadas e comprovadas nos relatórios anteriormente citados, ampliem suas inquietações, processos de organização, inclusive perguntando, tanto no plano privado quanto no público: a quem interessa tão estarrecedora violência? Quem está lucrando com a violência no mundo e, mais precisamente, no Brasil? Qual é o papel dos intelectuais e das universidades brasileiras no enfrentamento das violências? Quem são as pessoas e os grupos que precisam ser responsabilizados por tão gigantesco processo de violência? Já não passou da hora de todas as vítimas de violência praticadas pelo Estado serem indenizadas, especialmente no Brasil? E como a luta pela paz pode contribuir para a não violência em nossa sociedade?

São claros e reais os desafios para efetivação da paz. No plano local, regional, nacional e internacional, paz sim, mas como: a) Atributo fundamental para eliminação das desigualdades entre o mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido; b) Instrumento essencial para diminuição e controle dos arsenais bélicos e prevenção às guerras; c) Ferramenta indispensável e permanente para manutenção do pacifismo e fraternidade entre todos os povos; d) Requisito importante da organização e mobilização contra as desigualdades, injustiças sociais, exclusões e autoritarismos em qualquer região do mundo; e) Enquanto componente político-pedagógico, filosófico, sociológico, teológico, teórico-prático, consubstanciado pelos valores fundamentais da tolerância, amizade, solidariedade, cooperação, empatia, respeito à diversidade, e honestidade de propósitos humanizadores; f) Fermento e perfume espiritual, imprescindível para milhares de almas e corpos espalhados por este planeta; g) Inserção concreta nas atitudes, condutas e comportamentos de todos; h) Da bioética para uma vida verdadeira; i) Contínua pactuação entre países e povos para preservação de todos os seres vivos e do planeta; j) Paz, enquanto genuína vivência e afirmação teórico-prática, de desenvolvimento sustentável, da justiça social, liberdade, dignidade humana, e Direitos Humanos.

Instrumentos político-pedagógicos e didáticos que podem auxiliar na construção da paz

Há instrumentos, recursos, ou meios político-pedagógicos-metodológico muito válidos para que possamos mais e melhor defender, proteger e promover a paz, sistematicamente, na escola, no contexto das políticas públicas as quais estejamos engajados ou queiramos viabilizar, nas nossas relações cotidianas com os outros, configuradas pela existência de produções científicas, de educação para a paz e cultura de paz; educação em Direitos Humanos e para os Direitos Humanos; pedagogias progressistas; Sociologia e Filosofia; bem como em documentos importantes: Declaração de Princípio Sobre Tolerância; Declaração do Parlamento das Religiões do Mundo; Declaração dos Laureados com o Prêmio Nobel da Paz; Declaração e Programa de Ação Sobre Cultura de Paz; Declaração Sobre a Paz na Mente dos Homens; Carta da Terra; Compêndio da Doutrina Social da Igreja Católica Apostólica Romana; Declaração Universal dos Direitos Humanos; Carta Europeia da Água, Declaração de Durban, Declaração de Luarca – Direito Humano à Paz, Declaração de Princípios sobre a Tolerância, Declaração de Sevilha, Declaração de Vancouver, Declaração de Veneza, Declaração do Parlamento das Religiões do Mundo, Declaração dos Laureados com Prêmio Nobel da Paz, Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz, Declaração sobre Paz na Mente dos Homens, Declaração Ubuntu, Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, Declaración Universal de La UNESCO sobre La Diversidad Cultural, Kit UNESCO para uma Cultura de Paz, Programa do Século XXI pela Paz e a Justiça – Apeli a Haia, Relatório da ONU sobre progressos na Década Internacional para a Cultura de Paz, Relatório de Cultura de Paz, Relatório Dellors, Resolução 58/11 – ONU – 10 de novembro de 2003 e Tribunal Penal Internacional – Estatuto de Roma.

Para uma efetiva realização da educação para a paz e cultura de paz é imprescindível o desenvolvimento teórico-prático também da concepção freireana, que pode ser evidenciada abaixo, no discurso de Paulo Freire, em Paris, em setembro de 1986, durante solenidade de recebimento do Prêmio Unesco da Educação para a Paz, quando externou, de modo transparente, fecundo e belo:

De anônimas gentes, sofridas gentes, exploradas gentes, aprendi, sobretudo, que a paz é fundamental, indispensável. Mas que a paz, implica lutar por ela. A paz se cria, se constrói na e pela superação de realidades sociais perversas. A paz se cria, se constrói na construção incessante da justiça social. Por isso, não creio em nenhum esforço chamado de educação para a paz que, em lugar de desvelar o mundo das injustiças, o torna opaco, e tenta miopizar as suas vítimas.(FREIRE, 1986).

Através desta concepção, Paulo Freire nos apresenta pistas seguras para que possamos efetivar a educação para a paz e a cultura de paz para um outro mundo possível. Um mundo em que – em vez das potências mundiais estarem assegurando, como no presente fazemgigantescos investimentos objetivando a corrida espacial na direção do planeta Marte e sua exploração – deveriam estimular e garantir a grande e inadiável corrida de todos(as) na defesa, proteção e preservação do Planeta Terra. Não é possível, em hipótese alguma, na contemporaneidade, a educação para a paz e a cultura de paz sem uma ampla intensificação de nossas conexões com a natureza, e a totalidade de seus ecossistemas, de modo saudável e permanente. O aumento do buraco na Camada de Ozônio; as chuvas ácidas; o efeito estufa; o derretimento das calotas de gelo da Antártida, e conversão destas em gigantescos icebergs, que circulam hoje pelos oceanos; o aumento das desertificações em várias regiões do mundo; o agravamento das mudanças climáticas, e seus impactos sobre inúmeras populações; são reveladores de que as relações de milhares de seres humanos com o Planeta Terra não são pacíficas. São degradantes, predatórias, lastimáveis, pondo em risco a própria sobrevivência do planeta e da espécie humana!

Enfoque teológico

A Igreja Católica, nos últimos tempos, conseguiu elaborar e desenvolver uma importante doutrina social que tem contribuído para defesa, proteção e promoção da paz no mundo. Tal contribuição mão pode ser negligenciada ou obscurecida. De modo resumido, podemos evidenciá-la através deste trecho, presente na dissertação de LIED (2012):

Podemos indicar que a paz, em sua dimensão bíblica, está intrinsecamente ligada à Pessoa e à missão de Jesus Cristo. Cristo revela o sentido último dessa paz: uma realidade existencial e salvífica, historicamente possível e existencialmente necessária de ser vivenciada, principalmente nas relações interpessoais, como uma antecipação da vida plena do Reino de Deus, Reino de Paz. Em uma sociedade onde predomina a injustiça, a opressão e a exploração, não se pode falar de verdadeira paz. A paz não pode ser resumida ao bem-estar e à prosperidade individual, sem o exercício da solidariedade e o respeito ao direito de cada pessoa. A justiça é um elemento fundamental e necessário para reconduzir a noção de paz ao seu devido sentido, a fim de que se possa falar de uma verdadeira paz. A paz de Jesus apresenta também uma lógica inclusiva. A paz está presente nos relatos em que Jesus restitui a vida em toda a sua plenitude àqueles que se encontravam em uma situação de exclusão diante da sociedade. Sua paz é uma paz que salva, que cura nossa sociedade do mal da exclusão e resgata a dimensão do amor como fonte de reconciliação entre as pessoas. Para os tempos atuais, essa ética da paz supõe um aprofundamento constante da dinâmica interna da paz, pois sendo ela uma realidade tão complexa, exige de nós o reconhecimento de que a paz é uma conquista diária, uma constante superação de toda e qualquer forma de violência que age em nós e na sociedade. Num mundo marcado pela violência e por uma cultura de morte, faz se necessário sempre levantar a voz em defesa da paz. (LIED, 2012).

Cumpre-nos ressaltar a recomendação da leitura dos documentos e textos a seguir, como indispensáveis para uma ampla compreensão do papel importante da Igreja Católica Apostólica Romana no mundo contemporâneo:

Cardeal Angelo Sodano. Compêndio da Doutrina Social da Igreja: a João Paulo II, mestre de doutrina social, testemunha evangélica de justiça e de pazhttps://is.gd/Tl5Aim

Cláudio de Oliveira Ribeiro. Religiões e Paz: perspectivas teológicas para uma aproximação ecumênica das religiõeshttps://is.gd/JrQJ0f

Gilvan Leite de Araujo; Matthias Grenzer (orgs.). Os Direitos Humanos à luz da Doutrina Social da Igreja https://is.gd/3O1xgb

Hans Küng. Declaração do Parlamento das Religiões do Mundo: A história de um dos documentos mais importantes do final do século XX, contada por um de seus principais criadores https://is.gd/PzuzZd

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Religiões para a paz ou para a guerra? Diálogos transdisciplinares. Anais do Simpósio Internacional PUC Minas – Faje https://is.gd/22RfPM

UNESCO. Manifesto 2000 UNESCO (Cultura da paz) https://is.gd/4qK6ai

Considerações finais

O tema da paz revela-se não apenas complexo, belo, inadiável, como essencial. Inclusive, merecedor de maiores estudos, pesquisas e produções científicas, possivelmente a serem socializadas com todos os povos do mundo. É fundamental que para o desenvolvimento da paz nos inspiremos em exemplos edificantes, como os materializados por Jesus Cristo, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela, Dom Helder Câmara, Malala Yousafzai, Dom Evaristo Arns, Pedro Casadaglia, Dom Aloyso Loscheider, Dom José Maria Pires, Chico Mendes, Margarida Maria Alves, Maria da Penha, Albert Einstein, Papa Francisco e tantos outros que com suas vidas e obras, concretamente,contribuíram para a defesa, proteção e promoção da paz no mundo.

Não esqueçamos que nós não apenas vivemos. Nós, necessariamente, elaboramos e desenvolvemos convivências. Estamos inseridos numa rede de relações desenvolvidas diariamente. Por isso mesmo, devemos ser protagonistas da paz, enquanto, inclusive, seres humanos, claramente detentores de limitações e potencialidades. “Diante da globalização da indiferença, a alternativa é humana”, como extraordinariamente externou, recentemente o Papa Francisco. Portanto, cultuemos a paz conosco, com os outros e com o mundo, de forma genuína e autêntica.

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. Mãos dadas IN: Sentimento do mundo. 1ª ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

FREIRE, Paulo.Discurso durante a solenidade de recebimento do Prêmio Unesco da Educação para a Paz. Paris, setembro de 1986.

LIED, Leandro Luiz. O desafio da Igreja para propor um mundo de paz. Disponível em: https://is.gd/TWebeT Acesso em: 23 de maio de 2021.

MARTINS, André Amorim (coord.). Revisão Sistemática Sobre a Produção da Paz. p. 72-73.Disponível em: https://is.gd/Dw9IVD Acesso em: 23de maio de 2021.

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima é Mestre em Educação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); especialista em Educação em Direitos Humanos e para os Direitos Humanos, também pela UFPB; psicólogo educacional; pedagogo; professor do Ensino Médio e do Ensino Superior em instituições da rede privada de João Pessoa, nas últimas três décadas; e ex-professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).Também é escritor e radialista.

gbrasileducacao@gmail.com