As fake news: produção, disseminação, consumo e naturalização dos seus impactos na sociedade brasileira

Giovanny de Sousa Lima | colunista

As chamadas fake news são o portão de entrada para esta “revolução das sombras” que tentam confundir o conhecimento, a verdade, a civilidade instituída, a moral, o saber e, sobretudo, o próprio homem.

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(Hamilton de Paula Duarte)

Giovanny de Sousa Lima

Fake News

 

Presença nefasta

Em milhões de mentes e corações

Fake News: digamos não!

Simbiose de violações e violências

Fake News: digamos não!

Carimbados atestados de podridões.

Fake News: digamos não!

 

Barbárie camaleônica

Na contramão da História

E memória da Nação

Indução a erros

E destruições

Fake News: digamos não!

 

Não são mistérios, quimeras, distrações

Mas subterrâneos e lixo da anti-comunicação

Carnavalização de atrozes equívocos colossais

Medo, confusões, vomitadas velozmente

Pelas plataformas digitais

A degradar as relações sociais

Fake News: digamos não!

Constelação de torpes crimes

Fabricados em midiáticas esferas

Contra a dignidade da pessoa humana

Contra a vida

Em múltiplas dimensões

Um outro mundo é possível!

Fake News: digamos não!

 

Trabalhemos, pois, contra as multiformas da insensatez

Nas cavernas do senso comum, ou não

Com força, garra, educação e esperança

Para que haja a conversão necessária

Para o bom senso

Fake News: digamos não!

 

Que o amor, a paz, a verdade, a ética,

E as lutas dos operários em construção,

Não sejam contaminadas pelos porões imundos

Contrários a razão, a luz dos saberes

Fake News: digamos não!

(Giovanny de Sousa Lima)

Sem a pretensão de verdade absoluta, a produção e difusão do presente artigo constitui-se em convite a reflexão e ao debate democrático, à interlocução com respeito à humanização, com apreço ao Estado Democrático de Direito, à democracia, à civilidade, à dignidade da pessoa humana, e ao essencial, complexo e fecundo trabalho realizado pelos jornalistas e jornalismo, indispensável à sociedade brasileira.

A produção e difusão das fake news não se constitui em fato novo, nem na História da Brasil, muito menos em âmbito internacional. Todavia, é inegável que, com o advento da Revolução Científica e Tecnológica, desenvolvida, principalmente, ao longo das últimas cinco décadas, houve uma extraordinária e evolutiva transformação na estrutura organizacional-funcional dos meios de comunicação de massa, ensejando, inclusive, novas alternativas de acesso a estes, bem como possibilidades de criação, circulação e consumo de informações, de maneira multidimensional, gigantesca, numa velocidade jamais verificada em outros períodos históricos.

As chamadas redes sociais, por exemplo, são expressões reais da “nova comunicação”, que é vivenciada por milhões de pessoas na contemporaneidade. E, é dentro, principalmente, de seus contextos que são forjadas e disseminadas, muitas vezes de forma criminosa, atentatórias ao Estado Democrático de Direito, à democracia, à dignidade humana, ao jornalismo autêntico, ético, crítico, essencial, as destrutivas fake news, com impactos psicossociais-culturais-políticos no tecido da nação brasileira, dignos de enfrentamento, tanto individual quanto coletivamente.

O contrassenso atual é que: em nome da modernização, a barbárie se instala, contamina, degrada, vulgariza-se e normaliza-se. As fake news são como grandes pedras colocadas no caminhopara o aperfeiçoamento do processo civilizatório, seja no plano local, regional, nacional ou mundial. Se faz, portanto, necessário a unificação de amplos esforços político-pedagógicos, jurídicos, jornalísticos, políticos, para tornar as fake news completamente inadmissíveis e extintas do contexto da sociedade brasileira.

Compreende-se que as fake news produzem uma diversidade de graves e deletérios impactos, entre os quais podem ser nomeados:

  • Afetam a saúde mental de milhões de pessoas, principalmente com a propagação do negacionismo, intolerância política e dezenas de outras formas ardilosas, vis, de violências construídas e massificadas;
  • Geram, evolutivamente, inversão de valores, ampliando a putrefação de inúmeras relações humanas, cotidianamente;
  • Afrontam os fundamentos, princípios, paradigmas do Estado Democrático de Direito, da democracia, da dignidade humana;
  • Manipulam, encharcam o senso comum, vivenciado por milhares de pessoas, com mentiras, repetidas estrategicamente a exaustão, e que terminam sendo exteriorizadas de forma comportamental;
  • Vulgariza-se e “normatiza-se”, a cultura do ódio como recurso contra a defesa, proteção e promoção dos Direitos Humanos, acima de tudo, em nossa sociedade. Fato gravíssimo, escancarado, deplorável, edificado em algumas instituições da República Federativa do Brasil, como ficou comprovado nas investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das fake News, composta de 85 sessões, 370 horas de duração, 57 depoimentos, e 4 milhões de arquivos digitais submetidos à apreciação e análise;
  • Torpedeiam o processo eletivo e o resultado de eleições, como aconteceu nas eleições presidenciais de 2018, favorecendo o atual presidente da República;
  • Interferem negativamente no processo ensino-aprendizagem de milhões de crianças, adolescentes e jovens, como está configurado nas concepções sofistas da Escola Sem Partido;
  • Aprofundam, severamente, os preconceitos e discriminações contra as minorias sociais em todo o território nacional;
  • Sedimentam situações e condições para o contínuo processo de exploração e destruição dos principais biomas do País, favorecendo a expansão, poder e vultuosos rendimentos ao agronegócio, aos mega milionários do campo, e multinacionais, solapando o que resta ainda da soberania nacional;
  • Contaminam, poluem, degradam, a identidade multiétnica, multicultural, do povo brasileiro, sendo o WhatsApp o principal canal de compartilhamento de fake news, seguido do Instagram e do Facebook, acessados por milhões, principalmente por jovens e adultos;
  • Geram descrédito da ciência e das instituições globais de saúde, bem como enfraquecem, fragilizam, o acesso da população aos cuidados necessários de prevenção, ao lidar com a pandemia da Covid-19.

Ao estabelecerem parâmetros e análise das implicações concretas das fake news no universo das pessoas e da sociedade, ALVES & MACIEL (2020, p. 153) deixam claro, com bastante pertinência, que:

[…] o fenômeno contemporâneo das fake news é mais amplo e, mais do que algo que envolve ações necessariamente insinceras e manipuladoras, pode ser compreendido de maneira mais adequada como algo que envolve desinformações produzidas em contextos de embate e disputa ideológica. Via de regra, as fake news encontram seu motor não no desejo de negar a verdade, mas sim na vontade de vencer a disputa a qualquer preço, mesmo que para isso seja preciso falsear a realidade. As pessoas deixam de se perguntar se a notícia é verdadeira ou falsa. Estão ainda menos preocupadas se os fatos estão bem assentados ou se a fonte é confiável. A única coisa que importa é se a notícia favorece sua posição em um contexto polarizado. Assim, produzimos e fazemos circular informações de maneira entrincheirada, usando notícias e manchetes como armas no meio de um campo de batalha.ALVES & MACIEL (2020, p. 153).

As fake news são produções intencionais e, geralmente, manipulatórias, porque objetivam, acima de tudo, confundir a opinião pública. A mentira estrategicamente forjada, repetida, retroalimentada velozmente por quem dela teve acesso ou está tendo, se não convertida em objeto de checagem e análise crítica, termina por ser reproduzida. Bastando para tanto, que o receptor desinformado estabeleça comunhão com o emissor da desinformação construída. Assim sendo, o território e horizontes para propagação das fake news é pavimentado.

Para uma melhor compreensão do leitor, assegura-se aqui também a reprodução do conceito de fake news, bastante sistematizado, de GALHARDI (2020):

O termo fake news denomina a produção e propagação massiva de notícias falsas, com objetivo de distorcer fatos intencionalmente, de modo a atrair audiência, enganar, desinformar, induzir a erros, manipular a opinião pública, desprestigiar ou exaltar uma instituição ou uma pessoa, diante de um assunto específico, para obter vantagens econômicas e políticas. A expressão fake news popularizou-se mundialmente durante a cobertura jornalística da eleição presidencial de 2016, nos Estados Unidos. O termo foi usado na mídia pelo candidato a presidente dos Estados Unidos contra seus adversários, visando a desqualificar informações que favorecessem a candidatura deles. Igualmente, no Reino Unido, o referendo que levou o país a sair da União Europeia (o Brexit) e a ingressar em uma grave crise política foi, em boa parte, arquitetado por mentiras de xenófobos e ativistas de direita. A disseminação de notícias falsas alcançou também as eleições presidenciais no Brasil, quando a extrema direita supostamente conseguiu, graças ao poder viral das redes sociais, subverter a já combalida democracia nacional. O assunto, aqui no país, segue investigado em plena pandemia: a CPI das fake news disputa o noticiário com o novo coronavírus.(GALHARDI, 2020).

Percebe-se que diante da existência e gravidade deste fenômeno, é oportuno e inadiável que entidades de relevância, legitimidade e credibilidade da sociedade brasileira, viabilizem ações unificadas ou integradas, não apenas para o estudo, pesquisas, mas para a produção sistematizada e fundamental de enfrentamento e combate às fake news no território nacional. Considera-se que as principais instituições científicas do País (sociedades e institutos científicos, universidades) podem e devem agilizar esforços nesta direção, bem como entidades representativas da sociedade civil, como OAB, UNE, UBES, SBPC, CNBB, CUT, CUFA, DIEESE, ANDES, FENAJ, entre outras.

Para a problematização das múltiplas questões que envolvem as fake news e suas graves implicações na sociedade brasileira, foram construídos durante o curso da EaD Freireana, do Instituto Paulo Freire, inúmeros artigos e projetos de intervenção de extraordinária relevância, sobre a denominação de “Paulo Freire em tempos de fake news”, organizados por Roberto Padilha e Janaina Abreu, em cuja obra destacam-se concepções político-pedagógicas evidenciadas por GOMES (2019, p. 159):

Estes são marcados por dilemas, clímax de problemas, polêmicas sobre temas, disputas antiéticas de ideias e projetos. A pós-verdade é a antiga mentira. De que forma se apresenta o mundo contemporâneo, em que fake news aparecem? Fala-se em crise! Há crises de sistemas e ciclos. Estas, agravam outras crises, até descer após o último degrau. Os mecanismos geradores de exclusão e eliminações é tema de estudiosos e estão bem explicados pelo Prof. Doutor Ladislau Dowbor, em A Era do Capital Improdutivo: Por que oito famílias têm mais riqueza do que a metade da população do mundo? Assim, existem as crises trágicas, continuadas e exterminadoras de pessoas, multidões, porcausa da falta de lugar, recursos, condições, estruturas, acessos, oportunidades e liberdade para criar oportunidades. Numerosas pessoas morreram nesta realidade. Quantos estão morrendo e na iminência de morrer? Ninguém deveria perecer e ninguém mais deve perecer nisto!

Compreende-se que para a manutenção do sistema capitalista, cuja lógica perversa, desumanizadora e excludente, é a produção evolutiva das desigualdades, enquanto produto da estimulação da concentração da renda e riqueza em mãos das classes dominantes, as fake news, por excelência e necessidade deste próprio sistema, causam-lhe muito mais benefícios do que prejuízos. É uma das grandes correntezas para sua retroalimentação e, por extensão, construção de situações e condições para fixar e reproduzir o senso comum, sob o manto da camisa de força das fake news.

Tais engrenagens reforçam a hegemonia das classes dominantes, seus interesses e ideologia, sobre os interesses das classes dominadas, que não se percebem ainda, na sua maioria, envoltas nas armadilhas e arapucas deste novo universo derivado da “tecnologização” do Século XXI, cujas expressões visíveis são as fake news.

Papa Francisco, aos comunicadores: contrastar as fake news, mas não isolar os que têm dúvidas

Em depoimento histórico, dirigindo-se ao Consórcio internacional da mídia católica “Catholic fact-checking”, nodia 28 de janeiro de 2022, no Vaticano, o Papa Francisco convida a refletir sobre o estilo dos comunicadores cristãos diante de certas questões relacionadas com a pandemia.

Se for necessário combater as fake news, as pessoas devem sempre ser respeitadas porque muitas vezes aderem inconscientemente a elas. O comunicador cristão faz seu o estilo evangélico, constrói pontes, é um artífice da paz também e sobretudo na busca da verdade. Sua abordagem não é de oposição às pessoas, ele não assume atitudes de superioridade, ele não simplifica a realidade, para não cair em um fideísmo do estilo científico. Na verdade, a própria ciência é uma contínua aproximação à resolução dos problemas. A realidade é sempre mais complexa do que pensamos, e devemos respeitar as dúvidas, ansiedades e perguntas das pessoas, tentando acompanhá-las sem jamais tratá-las com superioridade. A busca da verdade não pode ser levada a uma perspectiva comercial, aos interesses dos poderosos, aos grandes interesses econômicos. Ficar juntos pela verdade significa também buscar um antídoto para algoritmos destinados a maximizar a rentabilidade comercial, significa promover uma sociedade informada, justa, saudável e sustentável. Sem uma correção ética, estes instrumentos geram ambientes de extremismo e levam as pessoas a uma radicalização perigosa.Trabalhar ao serviço da verdade significa, portanto, buscar o que favorece a comunhão e promove o bem de todos, não o que isola, divide e se opõe.(MASOTTI, 2022)

Percebe-se que o depoimento do Santo Padre, Papa Francisco, é de grande valor teológico e pedagógico, além de revelador da renovação do seu compromisso e responsabilidade pública com a prevenção e combate concreto às fake news. É ainda uma claríssima convocação, acima de tudo, a todos os jornalistas e demais agentes de comunicação, integrantes do universo cristão, em todo o mundo. Realmente, tão deletério fenômeno constitui-se também em fator preconizador de instabilidade psicossocial-cultural-político, e até religioso, pois é retroalimentado pelo negacionismo, mistificação e múltiplas formas de violências. É a mais elevada expressão do lixo da anti-comunicação do Século XXI.

Aos céticos: o negacionismo, a mistificação, a manipulação das fake news, através de alguns exemplos:

  • A escravidão nunca existiu no Brasil;
  • A democracia racial existe no Brasil;
  • Não houve ditadura militar 1964-1985 no Brasil;
  • Os índios são selvagens, pobres e contra o progresso, porque são preguiçosos;
  • Os índios não são detentores de cultura;
  • A Covid é só uma gripezinha;
  • O PT construiu e implantou o “kit gay” nas escolas de São Paulo;
  • O “Kit Covid”, composto pela hidroxicloroquina e ivermectina, é eficiente e eficaz para o tratamento preventivo e combate à Covid-19;
  • A Teologia da Libertação é uma doutrina feita por ateus e comunistas;
  • A homossexualidade é uma doença;
  • A vacina não salva vidas, só Jeová salva vidas no Brasil;
  • Morreram de Covid no Brasil apenas 3000 crianças com menos de 11 anos de idade;
  • Mulheres só servem para pilotarem fogões e não carros, aviões, navios, trens e instituições;
  • A Terra é plana;
  • A pobreza e a miséria são fatos naturais, no plano local, regional, nacional e mundial, e sempre existirão;
  • As coisas são o que são, não há como mudá-las;
  • Paulo Freire era ateu e apologista do comunismo. Sua obra serviu para ampliar o analfabetismo no Brasil;
  • A violência só se resolve com a prática de mais forte, intensa e grande violência;
  • Quem se vacinar contra a Covid-19 pode ficar igual a um jacaré;
  • A vacina contra a Covid-19 transmite Aids;
  • Nos governos do PT, o Brasil esteve próximo de se transformar em uma ditadura comunista;

Em tais exemplos de fake news, coletados em distintos meios de comunicação, são, incontestavelmente, reveladores da natureza criminosa e falsificadora da realidade. É fundamental esclarecer que divulgar fake news é crime, de acordo com o artigo 41º da Lei de Contravenções Penais, que prevê prisão de 15 dias a 6 meses. A pessoa que comete esse tipo de crime ainda poderá ser incluída na Lei 11.659, que estabelece multa para quem divulgar, por meio eletrônico, notícias falsas sobre epidemias, endemias e pandemias no Estado da Paraíba.

Uma bela iniciativa foi a criação do “Diga Não às fake news” (paraiba.pb.gov.br/fakenao), canal oficial do Governo do Estado da Paraíba para checagem de dados ligados à administração pública estadual. Mecanismo que poderia ser criado em todos os municípios paraibanos.

Sequenciando o processo de problematização das fake news e seus impactos na sociedade brasileira, considera-se oportuno ressaltar o processo de pesquisa e elaboração de pertinente concepção sobre tal tema, realizado por MARTINS (2021, p. 1198):

Certamente, podemos destacar que no Brasil as fake news vêm tomando uma proporção, e um caminho incerto, com seus impactos na sociedade, pois vem causando transtornos e consequências nas relações das interações sociais. De fato, a reprodução de mentiras compartilhadas, ora seja, em plataforma de WhatsApp ou Facebook, se replicam de maneira desenfreada, podemos dizer que as fake News são inverdades que alienam um público que pouco checa a informação de maneira sistemática, atualmente torna prioritário, criar esse hábito, que é algo muito importante nos indivíduos leitores, a despertar, o exercício de cidadania, infelizmente as fake news é um desserviço que segue na contramão das informações autênticas, criando impactos negativos em vítimas que estão inseridas no meio da sociedade. A era da informação condiciona o indivíduo na sociedade a se modelar de maneira despreparada a manipular plataformas duvidosas sem ao menos se tocar que por trás da maneira de conteúdo ou link compartilhado tem um interesse por trás.

Diante de tais formulações, fica evidente a prestação de desserviço da produção, reprodução, consumo e naturalização das fake news em nossa sociedade. Ao mesmo tempo, verifica-se como inadiável a construção de uma verdadeira política pública de Estado contra as fake news, inclusive como resultante da participação efetiva dos diversos parlamentos no Brasil, das instituições científicas, do Poder Judiciário (através dos seus principais órgãos), e das entidades em geral, representativas e legítimas da sociedade civil brasileira. Não há sociedade forte, saudável, democrática, fraterna, justa, desenvolvida, com arsenais de fake News sendo produzidos e circulando diariamente em milhares de canais e meios de difusão.

Relevante também foi o editorial do Jornal A União, de 30 de janeiro de 2022, denominado “Sossegar a voz”, se contrapondo a anti-comunicação vigente, a saber:

O desafio é construir as bases de uma Comunicação Social não violenta, inspirada por exemplo nas lições do escritor russo Liev Tolstói (1821-1910), autor de “Guerra e Paz”, e do líder espiritual indiano Mahatma Gandhi (1869-1948), idealizador de duas ferramentas teóricas para a luta pacifista: “Ahimsa” (não violência) e “Satyagraha” (a força da verdade). No plano específico da interlocução social, realinhar o olhar para o ódio que impera, hoje, no mundo, em uma escala talvez nunca vista antes, de maneira a romper com o ciclo de comunicação interpessoal, é uma preocupação que deveria estar na agenda de prioridades, tanto do Poder Público, como do empresariado e da sociedade civil organizada.

Uma comunicação social cultuadora, sistematizadora e socializadora dos valores fundamentais para o bom convívio social (amizade, fraternidade, solidariedade, cooperação, discernimento), enfatizadora do compromisso e responsabilidade com a investigação ampla, transparente e comprovada dos fatos, continua sendo indispensável. Inclusive, para manutenção do Estado Democrático de Direito, da democracia, da Justiça, dos Direitos Humanos, e de tudo mais que diga respeito à defesa, proteção e promoção da vida, em todos os seus aspectos. Esta é uma missão e tarefa que o bom jornalismo e os autênticos jornalistas não podem prescindir, sob qualquer pretexto. A verdade, ontem, hoje e amanhã, precisa prevalecer, como centelha gigante de luz contra as trevas.

As questões que envolvem a produção, disseminação e consumo das fake news, perpassam o território local, regional, nacional, e já afetam, diretamente, o plano internacional. Conforme fica evidente nos estudos e pesquisas realizados pelo Centro de Ensino, Pesquisa e Inovação da FGV Direito São Paulo, em seu último trabalho, publicado e aqui, simbolicamente, destacado:

Os processos de desinformação online contemporâneos puderam ser observados, entre outros casos, nas eleições gerais do Japão em 2014 (Schäfer, Evert, e Heinrich, 2017); nas eleições presidenciais dos Estados Unidos da América (Allcott, Gentzkow, 2017) e no referendo sobre o Brexit no Reino Unido (Bastos, Mercea, 2019), ambos em 2016. Em 2017, as eleições presidenciais da França também passaram por casos de fake news (Ferrara, 2017). Mais recentemente, as eleições gerais na Índia em 2019 foram marcadas por um elevado volume de desinformação online (Ponniah, 2019), ainda que não tenhamos encontrado estudos acadêmicos sobre o tema. No Brasil, diversos indicadores sugerem que o assunto está sendo percebido cada vez mais pelo público. O Digital News Report 2018, da Reuters Institute (Newman et al. 2018) revelou que 85% dos brasileiros dentro de sua amostra dizem que estão “muito ou extremamente preocupados a respeito do que é real e o que é falso quanto a notícias na internet”. É a maior proporção entre os 37 países estudados no relatório.(KAROLCZAK, 2021, p. 7)

Diante do exposto, é inegável que o processo de letramento midiático, informacional, científico, e democrático, seja intensificado, de forma sistematizada, no âmbito, principalmente, de todas as instituições educacionais, unidades escolares, em todo o território nacional.Como, inclusive, parte componente obrigatória a ser inserida nos currículos escolares, tanto na Educação Básica, como em todas as outras modalidades de ensino, numa verdadeira jornada de conscientização real para o exercício pleno da cidadania. O trabalho político-pedagógico formulado a partir das pedagogias progressistas pode contribuir, significativamente, para edificação de formas ou modos de comunicação autênticos e genuínos, a serviço da maioria do povo brasileiro.

Ferramentas de enfrentamento às fake news, conforme especialistas

Se o problema das fake news existe concretamente, e tem implicações cada vez maiores na sociedade brasileira, necessário se faz que seja enfrentado, de forma técnica, jurídica, política e científica. Alguns fóruns, encontros jurídicos, e outras iniciativas similares neste sentido, vão surgindo no Brasil, se convertendo em fatos alvissareiros e promissores para o enfrentamento e combate às fake News no País,como foi o “Seminário Internacional Fake News e Eleições”, de cujo evento alguns especialistas participaram, e assim se posicionaram:

“[…] Nenhum jornalista é livre para exercer seu trabalho se ele estiver trabalhando sob ameaça, se estiver trabalhando sob um ambiente de intimidação e confronto. […] O Projeto Comprova reuniu 24 veículos de mídia, grandes e pequenos, digitais e tradicionais, impressos, revistas, jornais, rádios e TV, em torno de um interesse público que era o combate à desinformação num ano eleitoral, num ano em que se temia que a desinformação pudesse ter um efeito nas eleições, nas campanhas e até,quem sabe, no resultado eleitoral. […] Chegamos, ao final de 3 meses de trabalho, a 147 rumores checados, sendo que, se não me equivoco, apenas 8 eram rumores que tinham fundamento na realidade, todos os demais eram absolutamente falsos. […] há um risco muito grande para a liberdade de imprensa e há um risco muito grande para o jornalismo quando se tomam iniciativas de combate à fake news baseadas em legislação e em justiça.” (Daniel Bramatti)

“[…] fact-checking é o seguinte: é você pegar uma declaração de uma autoridade, ou seja, em on tá? É um presidente, um ministro, um economista, um empresário, enfim que seja […] todas as declarações que eles dão e depois vão pegando as principais frases onde eles citam coisas verificáveis, porque a gente é obrigado a se voltar a banco de dados verificáveis, ou seja, IBGE, Datasus, Caged […]. Um dos princípios da checagem é que você é obrigado a ouvir o outro lado. Então, assim, se eu descubro que alguém falou alguma coisa falsa, baseado numa base de dados confiável, eu sou obrigado a chegar para a assessoria do ministro, do político, do empresário […]. Debunking é uma checagem de material que não tem origem. Portanto, ela não é em on. É aquele tipo de card que a gente vê em rede social falando as maiores atrocidades sobre quem quer que seja. Isso aí também é verificável desde que a gente consiga achar uma base de dados que possa provar que aquilo ali é falso ou verdadeiro.” (Gilberto Scofield Jr.)

“[…] em 2018, o Brasil aparecia como o terceiro país com a maior queda no índice de confiança nas instituições, segundo o Edelman Trust Barometer. E o segundo é que ainda em 2015, o brasileiro já consultava o celular 78 vezes ao dia, em média. E isso nos coloca em um cenário de baixa confiança nas instituições e de um alto engajamento digital. […] em relação aos bots, nos debates […]. A gente nota, nos dois campos extremos, o da direita e o da esquerda, nesses dois polos antagônicos, cerca de 22% das interações com algum sinal de automatização. […] quero citar esse trabalho que é bem recente – foi publicado no ano passado na Science, por uma equipe de pesquisa do MIT –, mostrando que as fake news se espalham mais depressa e que elas chegam mais longe do que as notícias verdadeiras. […] a importância de a gente agir na infraestrutura de disseminação de notícias falsas, de rumores e de desinformação. E que para isso a gente precisa identificar a interferência externa, diminuir o alcance das fake news, reduzir o isolamento ideológico e, complementando, também trabalhar com a identificação de automatização.” (Marcelo Lacerda)

“[…] Nós monitoramos e verificamos a desinformação não apenas nas mídias sociais, mas também nas mídias que têm a ver com política e com o mundo político de modo geral. […] é importante combater a desinformação política, mas isso aqui também é muito importante, porque desinformação na área de ciência pode impactar a saúde das pessoas. […] temos também uma política de correção, a gente tenta ser 100% correto, mas, às vezes, a gente comete erros. A gente tem que assumir esses erros e a gente fala: ‘Olha, a gente corrigiu o post, infelizmente cometemos um erro e vamos tentar melhorar da próxima vez’. […] nós não queremos ser apenas uma organização de notícias que fornece conteúdo. Nós queremos ser uma associação que fornece boas ferramentas para as pessoas, para que elas próprias possam verificar os fatos das notícias.” (Andrés Jiménez)

Fica explícito, cada vez mais, a necessidade extraordinária da existência de um jornalismo no Brasil, fundamentalmente, autônomo, independente, isento, autêntico, corajoso e ousado, na investigação real e divulgação dos acontecimentos. Democracia forte, saudável e desenvolvida, é democracia com jornalismo e trabalho jornalístico produzido com liberdade de expressão. Os meios, recursos, estratégias, novas tecnologias que possam auxiliar na checagem das notícias, constitui-se também hoje em mais um desafio a ser acolhido e vivenciado por todos os jornalistas e meios de comunicação comprometidos, cotidianamente, com a verdade. Múltiplos atores existentes dentro da sociedade brasileira também não podem eximirem-se de cumprir esta relevante missão político-pedagógica e cidadã.

Cinco dicas de como reconhecer uma fake news

Há metodologia, por extensão, possibilidades e mecanismos reais para que, inclusive, o leitor deste modesto artigo, possa, no dia a dia, fazer uso, como forma de não consumir e reproduzir este verdadeiro estorvo do tempo atual, que são as fake news. Abaixo, alguns indicativos, listados por SOUZA&FRANÇA (2021), de como você deve proceder:

  1. Confira se o site é confiável: Desconfie de notícias vindas de fontes desconhecidas ou que não se revelam. Jornais e sites de notícias confiáveis do jornalismo têm um compromisso com as informações que veiculam, uma vez que uma informação errada ou falsa pode comprometer a credibilidade e reputação do jornal. Atenção para sites com muitos erros gramaticais. Alguns sites de notícias falsas usam um nome parecido com jornais conhecidos, às vezes mudando apenas uma letra, para disseminar as fake news
  2. Confira a data da publicação: Às vezes a notícia até é verdadeira, mas foi publicada há meses ou anos atrás, sendo que a notícia não tem o mesmo sentido no momento presente.
  3. Verifique outros sites: Atualmente, dificilmente um portal de notícias consegue segurar a exclusividade de uma notícia por muito tempo, rapidamente outros sites confiáveis também estão postando a notícia. Por isso, desconfie caso o conteúdo esteja em apenas um lugar.
  4. Leia a matéria completa: Muitas vezes os canais de comunicação usam títulos sensacionalistas para atrair a atenção do leitor. Quando lemos a matéria completa, por vezes percebemos que o conteúdo não é bem o que o título nos passa à primeira vista.
  5. Use sites de checagem: Nesses sites, profissionais trabalham para checar se determinadas notícias são verdadeiras ou não. Alguns exemplos desses sites são: Agência Lupa, Fato ou Fake, Projeto Comprova.

A adoção de atitudes, percepções, análises apuradas e críticas da totalidade das notícias que são veiculadas por qualquer meio de comunicação, é tarefa que todo cidadão. Essa é uma condição importante, e por que não dizer essencial, para que o mesmo não se torne objeto e vítima das fake news, e não vitime outras pessoas. A comunicação precisa ser retroalimentada pelo sublime suporte e sustentáculo do diálogo democrático, verdadeiro e transparente. Precisa estar comprometida pela comunhão e socialização da verdade, a serviço da vida, da dignidade humana, da ética, da convivência harmoniosa, produtiva e saudável entre todas as pessoas. Precisa, inclusive, contribuir para a libertação efetiva, material e intelectual das pessoas. Não apenas informar, mas formar para a cidadania ativa, participativa, consciente e livre.

Considerações finais

Muito embora as fake news e seus impactos na sociedade brasileira sejam reais, nefastos, e cada vez mais evolutivos, afetando muitas vezes a estrutura organizacional e funcional de inúmeras instituições, bem como prejudicando pessoas, tanto no plano individual quanto coletivo, há, por sua vez, esforços sendo empreendidos em várias esferas públicas e privadas para o seu enfrentamento e combate, o que é inadiável e fundamental.

Todos os poderes da República Federativa do Brasil precisam ampliar o diálogo e a sistematização de ações para o equacionamento das fake news no contexto da Nação Brasileira. Essa tarefa não é apenas do Estado, mas também da família, das escolas, dos movimentos sociais, da sociedade como um todo.

E, é indispensável, dizer que é repugnante, inadmissível e inaceitável que a mais alta autoridade do País, o atual presidente da República, diga, repetidamente: “a mídia mente o tempo todo”; “a mídia é uma fábrica de fake news”; “imprensa de merda”. E para agredir ainda os jornalistas utilize adjetivos, como: “canalhas”, “quadrúpedes”, “picaretas”, “idiotas”.A Fenaj fez muito bem, com máxima propriedade, seu relatório de 2021, denominado “Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil”, cujo teor concordamos integralmente e, inclusive, recomendamos aos nossos leitores que leiam o documento na sua integralidade.Digamos não às fake news!

Referências

A UNIÃO. Sossegar a voz (editorial). João Pessoa: Empresa Paraibana de Comunicação, 30 de janeiro de 2022, p. 2.

ALVES, Marco Antônio Sousa; MACIEL, Emanuella Ribeiro Halfeld. O fenômeno das fake news: definição, combate e contexto. Revista Internet & Sociedade. 2020, p. 153. Disponível em: https://is.gd/xcmspZ Acesso em: 28/01/2022.

DUARTE, Hamilton de Paula. Contribuições para uma pedagogia das fake news. IN: Paulo Freire em Tempos de Fake News: artigos e projetos deintervenção produzidos durante o curso da EaD Freiriana do Instituto PauloFreire. São Paulo:Instituto Paulo Freire, 2019, p. 159. Disponível em: https://is.gd/rOnQFV Acesso em: 28/01/2022.

FENAJ. Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil. Relatório 2021. Disponível em: https://is.gd/4VYG8K Acesso em: 31/01/2022.

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Giovanny de Sousa Lima