A prática dos novos valores e suas correlações com a ética, democracia, Direitos Humanos e cidadania

Certa vez um camponês encontrou no campo um filhote de águia bastante enfraquecido, tomou em suas mãos e levou-o para casa, e após tê-lo recuperado, o colocou para viver junto com as galinhas em seu terreiro, ali cresceu. Um dia, passando por aí um sábio, ao ver a ave, indagou: – Esta aí junto com as galinhas é uma águia, não é? – Era, disse o camponês. Mas ela virou galinha! – Mas ela tem dentro de si a capacidade de voar – disse o sábio. – Não voará, retrucou o camponês – ela virou galinha! – Vamos então fazer a prova. Tomaram a águia nos braços e foram para o alto de um penhasco para tirar a dúvida. O sábio tomou a ave, mostrou-lhe a direção do sol e lançou para o alto. De início a águia começou a cair como se fosse arrebentar-se no desfiladeiro, mas aos poucos começou a mover as asas e a equilibrar-se um tanto desajeitada, e começou a subir como se quisesse beijar o sol. Disse então o sábio: – Uma águia jamais pode ser transformada em galinha. Mesmo que permaneça no chão por muito tempo, ela manterá dentro de si o poder de voar, basta apenas que descubra e desperte pra isso.

(Fábula africana registrada pelo frei Leonardo Boff)

O panorama vigente no Brasil caracteriza-se por uma grave crise, com abrangente dimensão e impactos, praticamente em todas as esferas da vida nacional. Com o Governo Federal atual constituído por pessoas extremamente desqualificadas para o exercício de suas complexas e fundamentais atribuições, na macroestrutura do Estado, e um Congresso Nacional, na sua maioria, composto por ultraconservadores políticos, provenientes, na sua maioria, das classes dominantes, engendra-se o aprofundamento da instabilidade econômica; a perplexidade sobre o presente e o futuro do País; o individualismo, pragmatismo e tecnocratismo; a insegurança nas relações sociais; o avanço das desigualdades sociais; o fortalecimento da renda e riqueza da burguesia antinacional do Brasil.

É preciso, portanto, que estejamos amparados na ética, encharcados de renovadas esperanças, capacidades criativas e originais ou inovadores de lutas e, principalmente, fé, objetivando a construção de um outro Brasil possível. Nesse contexto, com bastante propriedade, teológica e pedagógica, o escritor e teólogo Frei Betto (2007) chama nossa atenção para um fato histórico de extrema relevância e atualidade:

Há quem diga que a fé não tem nada a ver com política. Ora, Jesus não morreu na cama, nem de desastre de camelo numa rua de Jerusalém. Morreu sobre dois processos políticos, condenado à pena de morte na cruz. Sofreu um processo político movido pelas autoridade judaicas e, outro, movido pelas autoridades romanas. Ser cristão é querer transformar o mundo, de modo a resgatar o projeto original de Deus, aquilo que Ele queria para nós e consta da primeira página da Bíblia: um paraíso na Terra. Se o paraíso não existe hoje, a culpa é da nossa ambição, do nosso egoísmo, da nossa opressão, da nossa desigualdade. Agora, temos que tratar de como mudar esta realidade aqui, porque é isso que Deus quer, para que a gente possa fazer desta terra de injustiça, ou como diz a Bíblia, uma terra onde corra o leite e o mel.

Diante de tão sábia concepção, e na condição de sujeitos políticos, históricos, culturais e sociais, como admitir, concordar ou ratificar, com um profundo retrocesso político que esta em curso no Brasil vigente, configurado pela materialização da Reforma da Previdência, Reforma Trabalhista, escola sem partido, militarização acentuada das mais importantes esferas do Estado e do Governo Federal, supressões contraditórias e antidemocráticas de conquistas efetivadas pelo povo brasileiro nos últimos 14 anos, questiona-se se novamente não temos novamente uma elite governando o País sem nenhuma sensibilidade para o social?

Hoje, o que restou das civilizações indígenas está ameaçado em diversos aspectos devido à evolução dos processos de invasão das terras indígenas, expulsões, repressões, intervenções, completamente descriteriosas no universo indígena nacional, com crescente repercussão internacional. A dor e sofrimento das comunidades indígenas recrudescem, vem sendo ampliada em todo o território nacional. E é ainda Frei Betto (2007) que nos faz recordar aspectos reais da História do Brasil, assim delineados:

Havia cinco milhões de índios quando os portugueses chegaram aqui. Hoje estão reduzidos a pouco mais de 500 mil. Os índios brasileiros, ao contrário de outros índios de países da América Latina, tiveram mérito de jamais se deixar escravizar pelos colonizadores. Devemos ter isso muito presente. Somos filhos de nações indígenas que, jamais o colonizador português conseguiu escravizar. Dizimou, matou, afogou, queimou, mas não conseguiu escravizar o índio. Tanto não conseguiu que os portugueses tiveram que trazer da África homens e mulheres livres como escravos, para trabalhar na lavoura e nas minas do Brasil. O Brasil foi o país das Américas com o mais longo período de escravidão – 320 anos. Vieram para cá, calcula-se, cerca de 10 milhões de africanos, dos quais cinco milhões morreram na travessia do oceano e têm o Atlântico como túmulo. Essa mesma elite, que promoveu o genocídio indígena e manteve os 320 anos de escravidão neste país, continua governando o Brasil. O Brasil passou de monarquia para república, mas a elite, infelizmente, ainda não mudou. Agora, temos a história do Brasil capitalista que vocês conhecem. Não somos, hoje, campeões mundiais de futebol, mas sim campeões mundiais da desigualdade social. Ora, em 1964, em nome dessa elite, os militares brasileiros rasgaram a Constituição no Brasil, deram um golpe de Estado e implantaram uma ditadura que durou 21 anos. Pois bem, o tempo de vida que muitos de vocês têm é o tempo que durou a ditadura militar no Brasil, de 1964 a 1985.

Para que esta terrível atrocidade, autoritária, obscurantista, desumanizadora, claramente violadora dos Direitos Humanos, não volte a ser implementada ou instalada em nosso país, se faz necessário que retroalimentemos, com serenidade, mas com coragem, a chama fecunda da bem aventurança, da fome e da sede de justiça alicerçada entre outros fatores, também, pela defesa ética na política e em todas as instituições existentes no País; Constituição Brasileira; defesa, proteção e promoção dos fundamentos e princípios do Estado Democrático de Direito; e ampliação política, educativa e cultural, profunda e real, com as camadas populares e movimentos sociais. Isso dentro dos paradigmas da legalidade e da democracia, que precisa ser permanentemente aperfeiçoada para que, inclusive, os Direitos Humanos e a cidadania não se convertam em letras mortas.

Novamente, o escritor, teólogo e educador, Frei Betto, reaviva nossa esperança quando afirma, categoricamente: “É mudando as pessoas que a gente muda o mundo; é se mudando que a gente muda o mundo; e é mudando o mundo que a gente se muda e muda os outros. Está tudo ligado.” Tal mudança, que claramente se contrapõe ao imobilismo, desagregação social e conformismo, requer a vivência, obviamente, de novos valores, como: a partilha, solidariedade, companheirismo, intensificação criteriosa de leituras, estudos, aprimoramento dos processos de formação política, respeito real pelos saberes populares, pela cultura popular, abertura franca e sincera para aprendizagem de companheiros juntos a outros companheiros e companheiras, sem esquecer que tais elementos precisam ser corporificados também pela alegria, esperança, fé e amizade, desenvolvendo uma real e profunda cultura de solidariedade cotidiana. Precisamos, concretamente, vivenciar menos o ter e buscarmos o ser. Ser mais!

O valor da solidariedade

Ademar Bogo (2001), refletindo sobre valores que devem cultuar um lutador do povo, diz:

O neoliberalismo, sistema ideológico da globalização, em nome do mercado, cruelmente asfixiou sindicatos, reduziu a importância de determinadas categorias, intimidou trabalhadores que no passado foram por demais combatidos e estabeleceu como norma o controle rígido sobre os estados nacionais, para que estes se transformem e se enquadrem dentro da visão e do conceito de Estado dos países ricos. Sendo assim, muitas categorias sentem-se importantes para enfrentar este monstro repressor e engolidor da dignidade. A solidariedade de classe é fundamental para que outras categorias de empregados, estudantes, camponeses e operários, se somem nas lutas pela defesa de direitos conquistados e a garantia do respeito à dignidade humana no trabalho.

A solidariedade aos excluídos, explorados e oprimidos é um desafio a ser cultivado, político e pedagogicamente, no cotidiano, pois representa atitude complementares, inversas a colaboração. Precisa ser nutrida por elementos educativos de conscientização dos direitos das pessoas, levando-se em consideração, sempre e globalmente, o contexto na qual estão inseridas. Deve, portanto, ser ação consciente de pessoas da mesma classe, na busca de alternativas conjuntas, visando à construção de soluções para os problemas que envolvem todos.

Problematizando a constituição e desenvolvimento teórico prático dos valores, e suas relações com o espaço político e cultural em dada sociedade, ARANHA & MARTINS (2005), nos revelam a impossibilidade da emergência de novos homens e novas mulheres com a existência e manutenção de estruturas políticas arcaicas, permeadas por concepções e práticas conservadoras.

Não há receitas para o agir bem: o compromisso conosco, com os outros, com as gerações futuras (o destino do planeta!), exige um estado de alerta constante. Viver moralmente não simples nem fácil. Não depende da introjeção irrefletida das normas herdadas, nem da arbitrária decisão subjetiva, mas se radica na aprendizagem da solidariedade, do reconhecimento da dignidade de si mesmo e dos outros. Como, porém, participar da construção de um mundo moral? Os problemas decorrentes da crise de valores que presenciamos não podem se resolvidos apenas por tentativas isoladas de educação moral do indivíduo. É preciso também vontade política de alterar as condições patogênicas, geradoras da doença social, para tornar possível a superação da pobreza moral. Dito de outro modo: não basta ‘reforma o indivíduo’ para ‘reforma a sociedade’. Um projeto moral desligado de um projeto político está destinado ao fracasso. Os dois processos devem caminhar juntos, pois formar o ser humano plenamente moral só é possível na sociedade que também se esforça para ser justa.

Já Ademar Bogo (2001), elucidando o valor, sentido e importância concreta da solidariedade nos ensina claramente:

Solidariedade é, portanto, buscar alternativas para elevar o ser humano a uma nova categoria, tanto na qualidade de vida quanto na qualidade de consciência e construção de novos valores. Solidariedade é mais do que doar o que nos sobra, mas também o que pode nos fazer falta, por entendermos que o ser humano tem esta possibilidade de permitir que todos os povos tenham o direito de satisfazer suas necessidades, mesmo que isso dependa da ajuda e participação solidária de todos.

Considerando a validade de tais pressupostos, não podemos esquecer ainda que é indispensável mantermos nossa justa, clara e lúcida indignação contra todas as formas de injustiça, preconceitos e discriminações, processos diversos de exclusão, e contra as atitudes de quem as comete. Embora, costumeiramente, se escute inúmeros governantes falarem sofismas contra a violência pluralista, ou diversificada, e prometerem segurança, muitos deles são responsáveis por ela corroer, de forma evolutiva, o tecido social da Nação Brasileira. O que se constitui em lamentável fato, digno de enfrentamento e equacionamento – político, econômico, jurídico e sociológico.

Aprofundando ainda suas reflexões sobre os valores que devem cultivar um lutador do povo, Ademar Bogo esclarece com nitidez: o valor da coerência – um lutador do povo deve ser coerente. Isso não significa que não possa evoluir em seus pensamentos. Ao contrário, como a História é dinâmica, nem todo conteúdo que explica as coisas continua sendo suficiente, por uma simples razão dialética: as coisas evoluem e se transformam. Ser coerente e acompanhar, atentamente, o movimento interno de cada ação em separado, e das ações na sua globalidade. Em tudo há esse movimento interno, que somente a atenção precisa e delicada de um lutador social pode perceber.

O valor da esperança: não existem derrotas definitivas. A esperança é como a água que umedece o leito da estrada, no subsolo. Por mais que se tente soterrá-la, sempre surpreende e renasce mais adiante. Há um provérbio popular muito sábio que diz: ‘ninguém consegue cercar a água, e quanto tentam os muros das represas sempre ficam abaixo’. O povo é esta fonte de água que jamais conseguem cercá-lo. Embora haja repressão, enganação e acomodação, é apenas o momento que tentam deter, mas enquanto detém, acumulam-se forças para voltar com mais energia e faz ruir a represa da dominação. Por isso, os poderosos temem a história, porque sabem que a rebeldia sempre traz de volta sonhos que estavam descansando em algum lugar da consciência dos que não admitem deixar jamais a esperança morrer.

Considera-se como essencial no processo de construção e desenvolvimento das lutas coletivas, democráticas, que os envolvidos, direta e indiretamente, comprometido com a defesa, proteção e promoção dos Direitos Humanos, e, concomitantemente, sensíveis ao pleno exercício da cidadania de todas as pessoas, também fecundos em seus corações e mentes e, obviamente, práxis política com valores tais como: firmeza de princípios e coerência com as aspirações reais e profundas das camadas populares; respeito integral à diversidade étnica, de gênero e de crenças religiosas, existentes em nossa sociedade; honestidade permanente de propósitos; culto permanente ao diálogo; temperança; ousadia criativa; defesa, proteção e promoção da identidade cultural do povo brasileiro.

Fertilizados também por tais valores, pugnamos, precisamos e merecemos um país: sem monopólio da comunicação de massa; sem disparidades econômicas regionais e desigualdades sociais; com socialização crescente da renda e riqueza nacional; sem corrupção e existência de organizações criminosas; com reforma agrária, mobilidade urbana e moradia digna para todos; com soberania nacional defendida, protegida e preservada integralmente; onde as minorias sociais tenham plenamente os seus direitos econômicos, políticos, e culturais, plenamente respeitados e amplamente promovidos pelo Estado e governo; sem pobreza, miséria, fome, nem nenhum processo de autoritarismo; merecemos, precisamos e temos o direito de lutar coletivamente de lutar por um país respeitado e admirado no cenário internacional, em todos os aspectos, e imaginamos ser ainda possível a adoção de mais e melhores investimentos que assegurem a evolução do patrimônio cultural, científico e tecnológico do País, garantindo com isso, a melhoria da qualidade de vida de todos os brasileiros e brasileiras.

Considera-se ainda como estratégica que façamos a defesa, proteção e preservação permanente das grandiosas, estratégicas, abundantes e diversificadas riquezas naturais existentes em diversos lugares e locais do território nacional – para que possam, mais de 500 anos depois, responder mais as necessidades do mercado interno do que do mercado externo, e favorecer a sadia e qualitativa vida que a população brasileira merece, precisa e tem direito.

Entende-se que é essencial a implementação de todos os investimentos, esforços, sistematizados e democráticos, para assegurar, realmente, educação e saúde pública, gratuita, qualitativa e universalizada ara todos, como dever do Estado e direito dos cidadãos. Espera-se que caminhemos sem medo na luta pelo aperfeiçoamento e democratização contínua de todas as instituições do País. Precisamos de uma nação sem violência, desemprego e caos urbanos nas metrópoles e cidades de porte médio e pequenas. Idealizamos, projetamos e desejamos um país sem negligenciamento do seu riquíssimo patrimônio histórico, cultural e artístico. Um país que cumpra os princípios constitucionais da Carta Magna, na sua plenitude. Um país com desenvolvimento, verdadeiramente, e com justiça social, assegurada e vivenciada por todos.

E para os céticos e pessimistas, que não conseguem ainda compreender o valor, a importância, e as profundas significações dos processos educacionais, DIAS (2018), de modo objetivo, deixa evidente:

O capital não consegue subordinar, tal como necessita, os processos educacionais que visam formar para a cidadania; ele não consegue por que: os saberes, valores, práticas, ideologias que entram na formação do cidadão, são dialéticos, contradições vivas. E é impossível controlar a dialeticidade do real para impedir o nascimento das contradições,para assim paralisar o movimento do real. O capital não consegue porque é inviável subordinar todas as dimensões, expressões e consequências geradas por processos educacionais. Essas forças do trabalho educacional que o capital não domina podem se materializar como promotoras da emancipação política, que é um momento dialético dentro dos processos materiais-dialéticos da emancipação dos homens, cujo ápice é a emancipação humana.

Vamos adiante!

Referências:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia. São Paulo: Moderna, 2005. p. 223-224.

BETTO, Frei. A prática dos novos valores. In: Letras e lutas. Florianópolis: Partido dos Trabalhadores de Santa Catarina, 2007. p. 09-19.

BOGO, Ademar. Valores que devem cultivar um lutador do povo. In: Valores de uma Prática Militante. Cartilha n° 9. São Paulo: Editoração Eletrônica Consulta Popular, 2001. p. 49-78.

DIAS, Antônio Francisco Lopes. A formação do cidadão: sua materialidade pelo trabalho educativo e sua incontrolabilidade pela lógica do capital. In: Filosofia, teorias críticas e emancipação humana: ética e cidadania em contexto de crise. Santa Rita: Sedic Gráfica e Serviços, 2018. p. 41.

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima é Mestre em Educação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); especialista em Educação em Direitos Humanos e para os Direitos Humanos, também pela UFPB; psicólogo educacional; pedagogo; professor do Ensino Médio e do Ensino Superior em instituições da rede privada de João Pessoa, nas últimas três décadas; e ex-professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).Também é escritor e radialista.
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