A pandemia da Covid-19: destruição e ensinamentos – um convite a reflexão

Em memória de todas as vítimas da Covid-19 no Brasil e no mundo.

No momento em que escrevo este modesto artigo, dia 08 de junho de 2020, de acordo com a plataforma do Ministério da Saúde, o quadro é o seguinte: 685.427 casos e 37.312 mortes. Já no plano mundial, a Covid-19 já provocou 6,5 milhões de casos, com mais de 388 mil mortes, sendo que 2,5 milhões de pacientes no mundo foram curados, graças, acima de tudo, a determinação e empenho gigantesco de milhares de trabalhadores da saúde.

Infelizmente, a pandemia da Covid-19 já converteu o Brasil em epicentro da doença na América Latina. As previsões no País onde uma pessoa morre a cada minuto em decorrência da Covid-19 são alarmantes e preocupantes. A crise não é apenas sanitária, mas também econômica, política, social e institucional. É, portanto, uma gigantesca e multifacetada crise. Talvez, um dos maiores desafios da nossa recente história.

O vírus não é de direita nem de esquerda. A politização do debate em torno da pandemia, principalmente, protagonizado pelo representante máximo do Poder Executivo Federal, com a consequente falta de um planejamento nacional em articulação com os governadores e prefeitos de todo o País, apenas tem contribuído para o agravamento da situação. A pandemia está em curso, evoluindo, significativamente, ceifando vidas, e infectando centenas de pessoas cotidianamente. Nesse sentido, só deve prevalecer um dever, para ser compartilhado por todos: enfrentá-la e liquidá-la!

Se faz necessário realmente que a Presidência da República reveja as suas ineficientes e ineficazes posturas em relação à pandemia, procurando recuperar o tempo perdido e se unir a governadores e representantes do povo, objetivando o exercício de uma cidadania guiada pelos princípios de solidariedade e de dignidade humana, baseada na democracia e na busca de soluções conjuntas para o bem comum de toda a população brasileira.

Temos a maior taxa de transmissão da doença, o segundo maior número de casos da doença no mundo e a maior taxa diária de mortos, mesmo sem considerar a comprovada subnotificação. Vivemos uma situação de gravíssima emergência em saúde pública, com mais de 600 mil pessoas infectadas e ultrapassamos, lamentavelmente, as 37 mil mortes. Que nunca mais no Brasil as pessoas esqueçam de, efetivamente, valorizar a ciência, o Sistema Unificado de Saúde (SUS), e as universidades públicas. Que jamais deixem de lutar para que os investimentos no desenvolvimento científico e tecnológico do País sejam cada vez maiores e reais.

A pandemia da Covid-19 tem se constituído, inclusive, em desafio profundamente impactante para a economia mundial, atingindo também em cheio até as economias capitalistas desenvolvidas. O processo de paralização do transporte aéreo, terrestre e ferroviário, indústrias e fábricas, comércio em geral, e área de serviços, especialmente a do turismo, vêm sendo muito afetadas. Milhares de pequenas e médias empresas no mundo fecharam suas portas e desapareceram. O desemprego por causa da pandemia tem evoluído, significativamente, acima de tudo, nos países capitalistas. A globalização neoliberal e o seu “deus mercado” revelaram-se frágeis, vulneráveis, a chegada e disseminação da Covid-19, em vários locais do mundo, com a produção e reprodução de amplos resultados nefastos. As maiores potências econômicas do mundo, detentoras das mais poderosas indústrias tecnológicas e bélicas, também foram surpreendidas pela explosão da Covid-19 em seus territórios. Detinham gigantes arsenais bélicos e até foguetes capazes de levar equipamentos para Marte. Mas, enquanto isso, seus sistemas de saúde não possuíam quantidades de profissionais de saúde satisfatórias, leitos hospitalares e UTIs devidamente equipadas e o pior: faltavam respiradores para os pacientes da Covid-19.

Conforme David Harvey, o sistema capitalista efetivamente não se encontrava capacitado, em múltiplos aspectos, para a emergência e propagação da Covid-19. A lógica predominante de seus gestores preocuparem-se mais com a economia do que com as pessoas provocou a evolução da pandemia no mundo. Talvez, o mundo pós pandemia, economicamente, precise de profundas transformações. A selvageria capitalista revelou-se uma vez mais ineficiente para responder às demandas emergenciais da humanidade.

Pareceu-me que o modelo existente de acumulação de capital já estava com muitos problemas. Movimentos e protesto estavam ocorrendo em quase todos os lugares (de Santiago a Beirute), muitos focados no fato de que o modelo econômico dominante não estava funcionando bem para a maioria da população. Esse modelo neoliberal repousa cada vez mais no capital fictício e em uma vasta expansão na oferta de moeda e na criação de dívida. Entretanto, já está enfrentando o problema da demanda por ser insuficiente para realizar os valores que o capital é capaz de produzir.

Como o modelo econômico dominante, com sua legitimidade decadente e saúde delicada, será que ele pode absorver e sobreviver aos impactos inevitáveis ​​de uma pandemia? A resposta dependia fortemente de quanto tempo a interrupção poderia durar e se espalhar, pois, como Marx apontou, a desvalorização não ocorre porque as mercadorias não podem ser vendidas, mas porque não podem ser vendidas a tempo.

Há muito que recusei a ideia de que a “natureza” estivesse fora e separada da cultura, economia e vida cotidiana. Adoto uma visão mais dialética e relacional da relação metabólica com a natureza. O capital modifica as condições ambientais de sua própria reprodução, mas o faz em um contexto de consequências não intencionais (como as mudanças climáticas) e no contexto de forças evolutivas autônomas e independentes que estão remodelando perpetuamente as condições ambientais. Deste ponto de vista, não existe um desastre verdadeiramente natural. Os vírus sofrem mutação o tempo todo para ter certeza. Mas as circunstâncias em que uma mutação se torna ameaçadora e fatal dependem das ações humanas.

Realmente, se faz necessário, no plano nacional e mundial, a formalização e cumprimento de compromissos e responsabilidades coletivas com a construção de sociedades economicamente desenvolvidas, porém, alicerçadas na justiça, igualdade e liberdade. Se faz ainda imprescindível, daqui para frente, efetiva valorização e aumento nos investimentos para o desenvolvimento científico e tecnológico, bem como o crescimento de nossa união, acima de tudo aqui no Brasil, para gerarmos, coletivamente, com base nos paradigmas da Constituição de 1988, os antídotos seguros e eficazes contra o perigoso vírus do autoritarismo que ameaça infectar o Estado Democrático de Direito.

De acordo com Slavoj Žižek, “uma pandemia global assola o planeta. Com a brusca mudança na rotina de bilhões de pessoas, vivemos em um momento em que o maior ato de responsabilidade é se manter distante daqueles que amamos”.  A brusca mudança na rotina a que faz alusão o autor, diz respeito ao fato concreto representado por inúmeras situações e condições de vida que foram modificadas em decorrência da pandemia. Como por exemplo: milhões de pessoas, no mundo inteiro, foram orientadas e tiveram que assumir não apenas o distanciamento social, mas também o isolamento social.

Medidas quarentenárias adotadas pela maioria dos governantes do mundo modificaram, substancialmente, o modo ou maneira das relações sociais se processarem, fazendo com que milhões de pessoas mergulhassem, inevitavelmente, na insegurança do presente e incertezas quanto ao futuro. A falta de medicamentos adequados, tratamentos e, acima de tudo, vacina, para o enfrentamento da Covid-19, produziram situações inusitadas, todavia muito válidas, como por exemplo: o fato das pessoas, necessariamente, terem pensado mais e melhor nos últimos quatro meses sobre o que é liberdade e segurança, tanto individual como coletivamente, para poderem balizar suas atitudes e novas relações.

Conforme Giovanni Alves (2020) a pandemia da Covid-19 tem se constituído em fenômeno altamente destrutivo dos fundamentos, princípios e paradigmas da economia de mercado, atingindo, principalmente, as camadas populares, devido a uma falta real de proteção social para tais setores. A engrenagem capitalista sucumbiu em várias áreas à voracidade e disseminação da doença. Precisa agora, obviamente, de muita inventividadee quiçá até mudanças de paradigmas para poder se refazer. Eis a sua concepção:

A pandemia global do novo coronavirus foi um “acidente” decisivo desfavorável para a economia do capitalismo global. Na verdade, foi um terrível acidente que não apenas acelerou de modo inaudito o crash da economia global como expôs e constituiu – ao mesmo tempo – fragilidades estruturais e novas contradições sistêmicas do capital, respectivamente (por exemplo, o PIB da Alemanha, economia mais forte da União Europeia, deve encolher 6% em 2020 – o que seria a pior retração desde a Segunda Guerra Mundial).

A paralisia da economia de mercado representou o aumento explosivo do desemprego e da queda da renda das pessoas (em poucos dias, nos EUA mais de 20 milhões de norte-americanos solicitaram o seguro-desemprego). O espectro da fome apavora não apenas os países “pobres” do mundo capitalista, mas os países do capitalismo mais desenvolvido (como os EUA) numa proporção similar à Grande Depressão de 1930. Na medida em que se paralisou o fluxo de produção e realização do valor, as sociedades capitalistas entraram num estado de choque social.

Portanto, o que a covid-19 fez foi revelar a natureza necrófila do Estado neoliberal que opera a lógica da dessubstancialização do capital e a desvalorização generalizada do trabalho vivo na era da Quarta Revolução Industrial.

Flexibilização do isolamento social e reabertura da economia: a hora é mesmo esta?

Considera-se extremamente inoportuna a decisão de muitos gestores públicos, no Brasil vigente, adotarem medidas de flexibilização do isolamento social e reabertura da economia no momento em que o Brasil se converte no segundo país com maior número de mortes no mundo, e o quarto em número de infectados. Diferentemente daqueles que alimentam todas as certezas sobre a presente pandemia, preferimos admitir que a mencionada não está ainda controlada em nosso país. A pandemia da Covid-19 está em curso, não está no fim! Até mesmo porque não fizemos bem o dever de casa como países a exemplo da Dinamarca, Nova Zelândia, Coréia do Sul, que tiveram a capacidade de assegurar aos seus cidadãos a realização de amplo processo de testagem para a Covid-19.

Já no âmbito nacional, essa testagem tem sido restrita demais. Estamos muito mal neste aspecto! Não estamos testando o suficiente. E os testes, conforme a comunidade científica, são os grandes guias para a reabertura da economia. Problematizando um pouco mais essa questão, é bom ter claro ainda que o Brasil é um dos recordistas mundiais, atualmente, em morte de profissionais de saúde. Nesse sentido, tentar seguir o padrão de flexibilização e abertura da economia como fazem atualmente os países capitalistas desenvolvidos da Europa, é caminhar na contramão das recomendações adotadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e vários centros de pesquisa do mundo.

Questiona-se: está havendo a diminuição dos dias de hospitalização dos pacientes da Covid-19? Os óbitos de pacientes da Covid-19 no Brasil estão declinando? Há pelo menos 30% dos leitos hospitalares livres nos hospitais públicos e privados existentes no País para acolhimento e atendimento de pacientes? Atualmente, se faz pelo menos 30 testes para cada 1000 habitantes, por mês, no Brasil?

Entende-se que se o prezado leitor refletir bem sobre tais questionamentos concluirá que o cenário não é favorável ainda para a reabertura da economia e, que não adianta o sacrifício de milhares de vidas para o atendimento de demandas meramente capitalistas. É preciso um maior, mais sistematizado, e coordenado controle da epidemia, na maior parte do território brasileiro; amplo processo de testagem de nossa população; e proteção social ampla e verdadeira, a ser assegurada pelo Estado. O correto seria a não flexibilização do isolamento social neste momento, nem abertura da economia. Copiar o que os países da Europa Ocidental – com as suas pertinentes peculiaridades – estão fazendo, poderá representar um elevado preçopara todas as conquistas que foram realizadas de enfrentamento à Covid-19 no Brasil.

Muito pertinentes são as considerações sistematizadas por Juliano Medeiros (2020), estabelecendo as correlações entre a pandemia da Covid-19 e seus impactos na economia mundial, bem como sinalizando as possíveis alternativas a serem adotadas no mundo pós-pandemia, vejamos:

As informações de que dispomos nos permitem crer que o impacto da pandemia do novo coronavírus sobre o sistema do capital será enorme. Segundo o FMI, a retração da economia global deve ser de, no mínimo, 3% em 2020. A maior economia do planeta, os Estados Unidos, terão uma contração de pelo menos 5,9%. A China, que tem puxado o crescimento da economia mundial nos últimos anos, deve ter um crescimento de apenas 1,2%. Países da semiperiferia do sistema, como o Brasil, sofrerão ainda mais. Por aqui a previsão é de que o PIB fique em -5,3% este ano7. Esses números, no entanto, não revelam o drama social que está por vir.

O futuro, portanto, está em aberto. É importante fazer previsões e perceber as tendências que a realidade aponta. Mas não devemos desprezar a possibilidade de reviravoltas. As “massas” podem alterar drasticamente o rumo da história se suas vidas estiverem sob grave ameaça. Exemplos não faltam. Elas ainda não entraram em cena nesta crise. No entanto, num passado recente, que remonta à crise econômica de 2008, a presença de multidões nas praças no norte da África, Europa, Estados Unidos e América Latina, impediu que a conta da recessão global recaísse exclusivamente sobre as maiorias sociais. Também ali se rompeu o consenso democrático-liberal, com o surgimento de novos atores sociais e partidários que mudaram a realidade da luta política em muitos países.

Por isso, além de prever, é preciso agir. A crise do discurso neoliberal em torno do Estado mínimo, do equilíbrio fiscal, da globalização de mercados – e nunca de pessoas – da imposição de metas econômicas, e mesmo num nível subjetivo, da meritocracia e do individualismo, é evidente. As medidas de proteção social adotadas em todo o mundo demonstraram de forma cabal que um outro tipo de Estado, à serviço das maiorias sociais, é possível e necessário. Abre-se, portanto, a possibilidade de uma ação no presente que determine o futuro.

Não é possível negligenciar a produção pela pandemia de quase 100 milhões de desempregados hoje no mundo, e real paralização de inúmeras cadeias produtivas em várias regiões do planeta, indicando que se faz realmente necessário o reordenamento ou reconfiguração da ordem econômica mundial, colocando o ser humano como prioridade absoluta e a consequente satisfação dos seus interesses, necessidades e aspirações.

Ensinamentos da pandemia da Covid-19 no Brasil e no mundo: o que é possível aprendermos?

Ausências de competências e capacidades para o processo de planejamento e coordenação do controle da epidemia, principalmente no território nacional;

Visibilidade mais ampliada da acentuada e desumanizadora concentração de renda e riqueza nas mãos de poucos, no Brasil e no mundo, favorecendo a proliferação do vírus;

Instabilidade na estrutura organizacional e funcional do Ministério da Saúde do Brasil (trocas nefastas de ministros da Saúde no meio da crise sanitária);

Quantidade enorme de milhões de brasileiros sobrevivendo na miséria absoluta, atualmente tendo que sobreviver com ínfimo e simbólico auxílio emergencial;

Ausência de capacidades materiais e financeiras adequadas e amplas para o enfrentamento da pandemia;

Infeliz posição e postura do atual presidente da república em relação a toda a pandemia, classificando-a de uma simples gripezinha e não acatando as recomendações pertinentes da Organização Mundial da Saúde;

Escassez profunda de leitos hospitalares, UTIs completamente equipadas, respiradores, profissionais de saúde em quantidade satisfatória, e ausência concreta de maior testagem da população;

Crise política em curso: péssima relação do Poder Executivo Federal com a maioria dos governadores e prefeitos, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal – fator que tem dificultado um melhor enfrentamento da pandemia em território nacional;

Agravamento da fome no mundo e da prática do feminicídio em várias regiões do planeta;

Comprometimento do processo ensino-aprendizagem durante o corrente ano letivo, envolvendo milhares de educandos e educadores em vários recantos do planeta;

Fechamentos e falências de milhares de pequenas e médias empresas;

Milhares de famílias, parentes de vítimas da Covid-19, sem poder ter acesso a informações sobre tratamentos que seus entes queridos estão sendo submetidos;

Paralização de várias companhias aéreas em inúmeros países, bem como de trens, metrôs, ônibus e transporte coletivo em geral;

Infelizmente, assistimos a conversão em vítimas fatais de centenas de trabalhadores da saúde em vários recantos do mundo;

Colapso do sistema de saúde pública em vários recantos do planeta;

Queda na produção e consumo de bens duráveis e não duráveis;

Queda nas taxas de crescimento econômico de vários países;

Ampliação das reflexões sobre as relações humanas e sobre a morte;

A solidão impositiva provocada pela pandemia. A vida trancada modificou substancialmente os componentes biopsicossociais de várias pessoas no mundo;

A solidariedade emergindo como um valor novo, cultuado. Se manterá mesmo no mundo pós pandemia?

Aumento dos encontros virtuais, proliferação de novos aplicativos e profusão de lives para minimizar o isolamento social. Alterações no convívio social têm impactado pessoas no mundo inteiro. Com isso, milhões de pessoas tiveram a saúde mental afetada pelo impacto da pandemia;

O fato da Covid-19, na sua propagação e contaminação, atingir, indistintamente, todas as pessoas, de diferentes etnias, culturas, credos, gêneros, idades, religiões, não a faz democrática de modo algum, uma vez que atinge feroz e velozmente, de maneira letal, acima de tudo, os mais pobres, em situação de vulnerabilidade social, os excluídos, que em vários recantos do mundo não desfrutam dos serviços de saneamento básico, água potável e o simples sabão para suas higienizações básicas ou precarizadas;

A Covid-19 tem se revelada mais letal para os pobres. A taxa de letalidade entre as populações pobres no mundo é infinitamente maior do que a taxa de letalidade onde residem as populações mais privilegiadas economicamente. Portanto, dizer que a Covid-19 é democrática não passa de um sofisma, ignorância ou má fé;

O capitalismo e seus agentes principais, estarrecidos e atordoados com a propagação da Covid-19 ficaram nus perante o mundo. A Covid-19 nos impôs o cerceamento de nossa liberdade – o distanciamento social, o isolamento social, o confinamento, são elementos desta imposição;

A construção da melancolia, da perda, sem que o luto possa ser vivenciado na sua plenitude por milhares de pessoas que perderam seus entes queridos;

Difusão das mortes avassaladoras reveladas em números, em espiral de estatísticas que são desumanizadoras. Temos que ver mais que números. Temos que perceber que são vidas que foram ceifadas;

A vida, principalmente no Brasil, que se caracteriza por grande instabilidade e incerteza quanto ao futuro, está sendo ampliada por causa da pandemia. Será que não seja necessário uma outra economia e novas formas de relacionamentos dos seres humanos com o planeta? Maiores atenções para com o Ártico, a Antártida, nossos oceanos, florestas, animais, biodiversidade, novas e possíveis formas de consumo consciente?

Esforço gigantesco, corajoso, meritório e determinante, de milhares de profissionais de saúde, para recuperarem e salvarem vidas;

Tentativas antiéticas, anticientíficas, de adulteração e manipulação de informações sobre a pandemia no Brasil, contrariando a Lei Nacional de Acesso a Informação e a própria Constituição Brasileira, promulgada em 1988, constitui-se uma excrecência digna de repúdio, como foi evidenciado pelas manifestações recentes feitas pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Conselho Nacional dos Secretários de Saúde, e várias outras entidades da sociedade civil brasileira. A prática da necropolítica não passará! Será sepultada pela luta de todos nós democratas reais do Brasil;

A união dos governadores do Nordeste para o enfrentamento da pandemia e as ações empreendidas pelo Poder Executivo Municipal, em inúmeros recantos do País, converteu-se em um fato auspicioso, positivo. Destacam-se as medidas quarentenárias definidas pelo estados e governos estaduais e municipais do Nordeste Brasileiro;

Hospitais militares reservaram seus leitos, até momento, exclusivamente, para os seus membros. Enquanto isso, membros da sociedade civil foram excluídos de terem acesso a tais hospitais, o que é lamentável;

Tramita no Senado uma proposta do senador Paulo Paim que cria o memorial virtual das vítimas da Covid-19. Diz o senador com propriedade: “É necessário não perder de vista que aqueles que tombaram com o Coronavírus eram pessoas como nós, e não meros números. Tinham amigos e familiares. Amaram e foram amados”;

A Saúde é um direito de todos e um dever do Estado (Constituição Federal de 1988);

A necessidade crítica de cooperação internacional durante a pandemia da Covid-19:

À medida que o novo coronavírus se espalha pelo mundo e o número de casos e mortes continua a aumentar, quase nenhum país ou comunidade permanece intocado por essa ameaça em rápida evolução. Ações drásticas e urgentes estão em andamento em todos os níveis de nossas sociedades para limitar a disseminação da COVID-19, identificar novas infecções, cuidar dos doentes e prevenir mortes, reduzir os transtornos sociais e econômicos, e atender às necessidades básicas humanas. Incertezas iminentes permanecem e muito ainda precisa ser feito. Nesse momento crítico, nós, as Academias de Ciências e Medicina do G-Science de todo o mundo, incluindo as academias dos países do G7, estamos atuando domesticamente em nossos países de várias maneiras. Mas acreditamos que é essencial enfatizar, juntos, a urgência da cooperação internacional, em várias dimensões:

  1. Comunicação internacional rápida, precisa e transparente sobre o desenvolvimento da epidemiologia desta nova doença viral, incluindo padrões de transmissão, período de incubação e letalidade, e a eficácia de vários métodos de intervenção.
  2. Compartilhamento em tempo real de informações científicas detalhadas sobre o vírus, a fisiopatologia da doença que ele causa e a resposta imunológica humana, suas origens, genética e mutações, e atividades coordenadas para promover o aumento do conhecimento em todas essas áreas.
  3. Compartilhamento de informações sobre pesquisa e desenvolvimento (P&D) de produtos médicos para lidar com a doença, em conjunto com esforços de pesquisa colaborativa para promover essa P&D vital.
  4. Em reconhecimento de nossa confiança mútua, coordenação e alinhamento de processos regulatórios e de fabricação e de padrões de qualidade necessários para acelerar a disponibilidade de equipamentos de proteção individual confiáveis, dispositivos de teste para diagnóstico e capacidade de tratamento médico.
  5. Esforços colaborativos para realizar uma análise rápida, mas baseada em evidências, de preocupações emergentes ou questões distintas de programas e políticas que podem surgir à medida que a pandemia global avança.
  6. Desenvolvimento coordenado de orientações, mensagens e comunicações, consistentes e baseadas em evidências, para o público e os formuladores de políticas em circunstâncias que mudam rapidamente.

A cooperação internacional e o compartilhamento de informações em todas essas dimensões serão particularmente cruciais em países e regiões onde o sistema público de saúde e sua infraestrutura de assistência à saúde não são adequados, onde a doença ainda não está em seu pico de impacto, e onde as condições sociais, econômicas e de saúde indicam extrema vulnerabilidade à rápida disseminação da doença e capacidade de resposta deficiente. Isso é particularmente verdadeiro para populações de regiões em desenvolvimento do mundo, incluindo África, Ásia e América Latina, bem como regiões vulneráveis de grandes conglomerados urbanos.

Também é urgente entender, projetar e se preparar para as diversas dimensões do impacto econômico e social da doença e as necessidades humanitárias iminentes. Organizações bilaterais de assistência ao desenvolvimento e bancos internacionais de desenvolvimento serão atores fundamentais, assim como fundações privadas que desempenharam papéis importantes em situações de crise internacional. A Organização Mundial da Saúde é de importância central em muitas dessas dimensões e precisa do forte apoio e cooperação de todos os nossos países.

A humanidade tem sido repetidamente ameaçada por doenças infecciosas e, a cada vez, tem superado a crise. Continuaremos a enfrentar sérias ameaças de doenças infecciosas no futuro, de gripes pandêmicas a infecções resistentes a medicamentos. São necessários esforços concertados para abordar as conexões críticas entre a degradação ambiental e os vetores de doenças, a fim de se evitar futuros surtos de novos patógenos. A presente tragédia da covid- 19 deve nos estimular a fortalecer dramaticamente nossos esforços para prevenir e controlar doenças infecciosas, para que as sociedades humanas melhorem seus estados de prontidão e aumentem a resiliência às calamidades provocadas por doenças infecciosas.

Esta é uma declaração das quinze academias listadas abaixo. Também somos membros da Parceria InterAcademias (IAP), com participantes de mais de 100 países ao redor do mundo, incluindo países que se encontram nas circunstâncias mais difíceis. As academias-membro da IAP podem desempenhar um papel importante em seus próprios países e cooperar internacional e regionalmente, trabalhando em estreita colaboração com o governo, a academia e o setor privado, a fim de superar a atual pandemia da covid-19.

Signatários:

Academia Brasileira de Ciências, Brasil

Académie des Sciences, França

Accademia Nazionale dei Lincei, Itália

Deutsche Akademie der Naturforscher Leopoldina, Alemanha Global Young Academy

Indian National Science Academy, Índia

Indonesian Academy of Sciences, Indonésia

Korean Academy of Science and Technology, Coreia do Sul National Academy of Medicine, Estados Unidos

National Academy of Sciences, Estados Unidos

Nigerian Academy of Science, Nigéria

Royal Society of Canada, Canadá

Royal Society, Reino Unido

Russian Academy of Sciences, Rússia

Science Council of Japan, Japão

Para os leitores que realmente tenham interesse em estudos e pesquisas mais aprofundadas sobre a Covid-19 e respectiva pandemia, no Brasil e no mundo, recomenda-se o conjunto de informações de caráter científico organizado pela Comissão Permanente de Análises de Conteúdos de Informação (CACI), da Biblioteca Universitária da UFSC, disponível em: http://portal.bu.ufsc.br/especial-covid-19

Referências:

ALVES, Giovanni. O novo coronavírus e a catástrofe do capitalismo global. Disponível em: https://is.gd/eXYZbv Acesso em: 08/06/2020.

HARVEY, David.Política anticapitalista em tempos de coronavírus. Disponível em: https://is.gd/XA7Lgw Acesso em: 08/06/2020.

MEDEIROS, Juliano.O futuro pós-pandemia: prever e agir. Disponível em: https://is.gd/XnooAh Acesso em: 08/06/2020.

ŽIŽEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do viral! Coronavírus e a reinvenção do comunismo. Disponível em: https://is.gd/hxTbWj. Acesso em: 08/06/2020.

 

Por: Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima é Mestre em Educação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); especialista em Educação em Direitos Humanos e para os Direitos Humanos, também pela UFPB; psicólogo educacional; pedagogo; professor do Ensino Médio e do Ensino Superior em instituições da rede privada de João Pessoa, nas últimas três décadas; e ex-professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).Também é escritor e radialista.

gbrasileducacao@gmail.com