Uma noite em Abril de 1985 marcaria para sempre a história de São José de Piranhas

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Parede do “Açude da Cagepa” após o serviço de revitalização realizado em 2020.

Aquele foi um ano de inverno rigoroso com fortes chuvas em um curto espaço de tempo como aconteceu na noite do dia 11 de abril, choveu 157 milímetros em apenas 50 minutos na sede do município, Lima (2017),. Há alguns quilômetros dali, na Serra do Bongá, nascente do Rio Piranhas[1], as chuvas foram ainda mais fortes,  provocando assim o rompimento em série de diversas barragens. A enxurrada desceu a serra serpenteando um rastro de destruição e chegou ao açude São José I com tamanha força que levou consigo boa parte da parede daquele reservatório.

Foi uma noite de terror para todos os habitantes que vivenciaram aquela catástrofe. Primeiro veio a chuva diluviana, muitos raios e trovões assustadores, a energia elétrica logo foi embora. Em pouco tempo a cidade inteira estava em polvorosa, a notícia que havia uma possibilidade da parede do açude se romper, espalhou-se numa progressão geométrica inacreditável para aquele tempo em que a comunicação era feita somente “de boca em boca”, pois telefone convencional era privilégio de poucos e a telefonia móvel, naquela época, era coisa apenas de filme futurista.  A correria consistia em ajudar parentes e amigos que estavam nas áreas de risco, salvar alguns pertences e procurar abrigo nas regiões mais altas da cidade. Não demorou muito para as ruas e residências nas imediações da estátua de padre Cícero e do Alto da Boa Vista ficarem tomadas de gente. O casal  Maria da Conceição e Segundo Irineu foi uma das famílias a abrir sua casa para prestar solidariedade às pessoas que buscavam proteção:

Foi de fato uma situação agoniante. Nós morávamos ali vizinho a Estátua de Padre Cícero e a uma certa altura da noite, não me lembro bem o horário, mas acredito que não era muito tarde, bateram à nossa porta, era o primeiro grupo de pessoas desesperadas dizendo que o açude ia embora e precisavam de um lugar pra ficar… Acolhemos essas pessoas e pouco tempo depois chegou mais, e foi chegando, e chegando…Providenciamos cadeira pra um, rede pra outro, calmante, chá, café…De repente não tinha energia elétrica, não tínhamos mais água pra nada!!! Não tinha água na torneira, nem nas reservas domésticas daquela época que se limitava a um filtro e as garras na geladeira, naquele tempo não tinha gelágua!!! O jeito foi sair na vizinhança pedindo ajuda e assim conseguimos nos virar e graças a Deus acolhemos e prestamos assistência a todos que nos procuraram. Lá pelas tantas chegaram o prefeito e alguns vereadores pedindo para que eu os acompanhasse para abrir a escola na qual eu era diretora na época, pois lá seria o abrigo provisório para as famílias que residiam no Bairro da Várzea e àquela altura já estavam desabrigadas, (Conceição Sobral Irineu).

Lembro-me perfeitamente que em um determinado momento daquela noite ouviu-se um estrondo, parecia a mistura de uma bomba com um trovão. Embora houvesse algumas hipóteses para aquele barulho, as badaladas do sino tocado freneticamente por Irmã Isabel[2] na torre da matriz de São José, não deixavam mais nenhuma dúvida, aquele era o aviso: o açude havia ido embora. A ansiedade de todos, a partir dali, era ver o que realmente tinha acontecido, fato que só foi possível após os primeiros raios do dia iluminarem aquele cenário de tristeza e devastidão. Um mar de lama ocupava o lugar onde até a noite anterior existia uma centena de moradias e um pouco mais acima, poucos vestígios indicavam o lugar da lavanderia pública e da estação de tratamento de água. A  parede do açude não era mais o maciço transversal para o barramento do rio, este abriu espaço praticamente no meio da edificação e agora corria por ali. As marcas daquela noite também estavam impressas em vários pontos da Serra do Horebe e do Braga, pedras gigantes haviam desmoronado, abrindo um clarão onde antes havia vegetação e deixando expostos rastros de terra avermelhada.  Ali, eu que era uma menina com 12 anos de idade e  até então só conhecia de perto os padecimentos da seca passei a entender que muita água no nosso sertão nem sempre será motivo de alegria e bonança.

Fátima Oliveira

(Esse texto é parte integrante da dissertação de Mestrado que tem como título: As marcas da transposição do Rio São Francisco: acesso à água, conflitos socioambientaise desenvolvimento no município de São José de Piranhas- PB)

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