Conjuntura econômica, política e social brasileira atual: um outro olhar

Mestre em Educação, pedagogo e professor, Giovanny de Sousa (Colunista)

A conjuntura econômica, política e social brasileira na atualidade está sedimentada e amparada pela corporificação do sistema capitalista, claramente marcado ou fundado, cotidianamente, pela sua imensa capacidade de produzir e reproduzir-se, operacionalizando: profunda concentração de renda e riqueza nas mãos das classes dominantes; desenvolvimento de processos predatórios de nossas riquezas naturais, contidas nos principais ecossistemas brasileiros; dependência econômica e financeira aos centros hegemônicos da capitalismo internacional; construções de graves exclusões, educacionais, culturais, econômicas e sociais; fabricação contínua de estratégias de manutenção da estratificação social – em nosso entendimento, extremamente perversa, provocando contínua desnacionalização da “ordem econômica nacional”.

O crescimento econômico que se busca, sob o comando da burguesia brasileira, gera modificações avassaladoras, rápidas, no mundo do trabalho e nas suas relações com o consequente aumento da carga de violência e violação dos direitos da classe trabalhadora, engendradas pelas principais instituições do Estado e do Governo Federal. Sequencia-se a lógica da manutenção em torno das desigualdades regionais e cruéis desigualdades sociais dentro do território nacional. Emergem no País verdadeiras ilhas de modernidade econômica, resultado da modernização conservadora, derivada da globalização vigente e do modelo econômico neoliberal, contornadas por mega núcleos humanos, econômicos e sociais inseridos e engessados pela metropolização da pobreza.

O ritmo da urbanização desordenada e acelerada não foi ainda finalizado, estancado, equacionado, e a política urbana do Poder Executivo Federal, cada vez mais assistemática, frágil e restritiva, como decorrência dos constantes cortes de investimentos e verbas, principalmente nos campos: habitacional, de transporte, lazer, segurança e educação, estão trazendo cada vez mais impactos e consequências profundamente negativas, acima de tudo, para as camadas populares. Para os mais pobres dos pobres.

Os planos, projetos e programas de mobilidade urbana, na maioria das capitais brasileiras, não respondem adequadamente aos interesses, aspirações e necessidades da maioria dos brasileiros, que estão atualmente localizados nos espaços urbanos.

A ordem econômica, apesar de ter incorporado importantes elementos econômicos “inovadores”, preconizados pela Constituição Brasileira de 1988, continua produzindo e reproduzindo situações e condições mais para responder aos macro interesses econômicos e financeiros externos, bem como do grupo de países que integram o G7, e organismos internacionais como Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Tudo realizado pelos que atualmente comandam o aparelho do Estado Brasileiro, em detrimento dos compromissos e responsabilidades com as aspirações, demandas, reivindicações e necessidades do mercado interno e, por extensão, necessidades da classe trabalhadora. O “Deus Mercado”, tão louvado pelas classes dominantes, subserviente ao imperialismo estadunidense, torna-se um monstro devorador de importantes conquistas do povo brasileiro, forjadas democrática e sistematicamente, com intensa participação popular, nos governos Lula e Dilma.

A postura do “Desgoverno Temer” é claramente de favorecer, acima de tudo, todos aqueles que integram a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e organizações similares, as grandes empresas nacionais, os proprietários dos bancos privados, os latifundiários, os “imperadores” do agronegócio, e as representações das empresas multinacionais fixadas no Brasil. A exploração do homem pelo homem é cada vez mais feroz, abrangente, aprisionando milhões de brasileiros na camisa de força da sobrevivência razoável e inglória.

São claras e drásticas alterações, sinalizadoras de retrocesso nas relações econômicas internacionais do Brasil com a Ásia, África e outras regiões do mundo, agravadas pelo enfraquecimento intencional e planejado do Mercosul. Não há interesse do “Desgoverno Federal” vigente em fortalecer a estrutura organizacional/funcional deste bloco econômico, o que se constitui num verdadeiro desastre, se levarmos em consideração os reais interesses nacionais e, por extensão, os interesses da maioria dos trabalhadores do Brasil, que são, na essência e historicamente, as maiores vítimas deste sistema econômico, que para existir se alimenta continuamente da produção perversa e criminosa da desigualdade, mecanismo reforçado pelo processo de globalização neoliberal vigente e deletério para a soberania nacional.

No campo social, a dívida do Estado com os integrantes da maioria da Nação Brasileira se revela imensa. Mais de 500 anos depois da invasão e colonização de exploração, realizada pelos portugueses, o panorama social está configurado por inúmeras deformações e mazelas estruturais, dignas de inadiável resolução. Senão, vejamos: déficit habitacional de mais 70 milhões de moradias; universalização das favelas pelo território nacional; aumento do processo de violação dos direitos humanos, principalmente das minorias sociais; falência absoluta da política nacional de segurança e do sistema penitenciário brasileiro – que não consegue reeducar nem reintegrar os presidiários à sociedade; permanência do trabalho escravo; etnocídios de civilizações indígenas; além da macro violência contra as mulheres, jovens e negros.

Há que se ressaltar ainda as amplas, profundas e inaceitáveis desigualdades sociais em todas as macro regiões do País; o controle de mais de 70% dos meios de comunicação de massa por um grupo de apenas sete famílias; a adoção de “reformas” com clara adulteração, desrespeito e violação de direitos econômicos e sociais dos trabalhadores; multiplicidade de práticas de violência; evolução das produções de manifestações de preconceito e discriminação contra as minorias sociais, inclusive nas redes sociais; e o desenvolvimento de nefastos modos e formas comportamentais de intolerância em relação à dignidade, liberdade de expressão, e manifestação política, cultural e religiosa de muitas pessoas.

A sociedade brasileira vigente e de forma crescente, através de parcela significativa de seus membros, vivencia o desprezo intencional e permanente pelo diálogo, solidariedade, fraternidade, cooperação, compaixão, sinceridade, honestidade e ética. A crise também é, portanto, derivada da inversão de valores. E quem perde com isso, a cada dia, é a democracia, a cidadania, os seres mais vulneráveis. Mas não percamos a esperança e lutemos coletivamente por uma sociedade mais fraterna, onde ocorra a construção e manutenção dos processos de cooperação sobre todos os arranjos competitivos. Onde a lógica do ter jamais possa se sobrepor a lógica do ser. Afinal, um outro mundo é possível! Que nos capacitemos, cotidianamente, para sua construção.

Sequenciando esta linha de raciocínio, ousamos afirmar que a crise brasileira atual é multidimensional, porque há, simultaneamente, manifestações cotidianas de: crise econômica, política, social, ética e moral, desafiando todos nós a refletir e buscar alternativas para o Brasil presente e futuro. Este País padece de um projeto nacional sistematizado, democrático e popular. Há uma necessidade inadiável da ordem econômica, política e social brasileira ser reestruturada, profunda e radicalmente transformada. Inclusive, com a supressão de todos os subprodutos culturais resultantes da herança do passado colonial.

A produção e reinvenção de conhecimentos e saberes no campo educacional, cultural, científico, tecnológico, econômico, é inadiável! Que possamos fazer uma ruptura com a lógica do mercado para a lógica societária, conscientizadora, emancipatória, libertadora. E que retomemos as lutas, os nossos trabalhos didáticos, educativos, político-pedagógicos, junto aos movimentos sociais, às organizações de base, às associações e sindicatos. Fortaleçamos com criatividade, generosidade, ousadia e coragem os movimentos sociais, para que, inclusive, possamos nos contrapor de forma mais organizada, autêntica e inovadora a todas as forças reacionárias, conservadoras, exploradoras, golpistas e afeitas às praticas da violência e violação dos Direitos Humanos no Brasil.

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima

Giovanny de Sousa Lima é Mestre em Educação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); especialista em Educação em Direitos Humanos e para os Direitos Humanos, também pela UFPB; psicólogo educacional; pedagogo; professor do Ensino Médio e do Ensino Superior em instituições da rede privada de João Pessoa, nas últimas três décadas; e ex-professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).Também é escritor e radialista.
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